Erro pequeno no trabalho e processo inteiro na minha cabeça. Estas são as coisas que eu tenho testado para sair do loop de autocrítica.
Por Patoloko, em 1 de novembro de 2026 · 5 min de leitura
Tem uma coisa que eu faço comigo mesmo e que levei anos para notar. Quando eu erro algo pequeno no trabalho, uma ligação que prometi retornar e esqueci, um dado que passei errado numa proposta, a minha cabeça não trata aquilo como um erro pequeno. Ela abre um processo. Junta prova, chama testemunha e traz de volta falhas de anos atrás que não têm relação nenhuma com o assunto do dia.
Se uma pessoa falasse comigo daquele jeito, eu não aguentaria uma semana perto dela. Como é a minha própria voz, eu carrego sem reclamar e acho que faz parte do pacote.
Escrevo isso num dia comum, sem crise nenhuma. É a observação de quem vem prestando atenção nesse barulho e tentando entender para que ele serve.
Trabalho com vendas, então errar faz parte do expediente. Quase sempre o conserto é rápido. Eu ligo, assumo, remarco, corrijo o número e mando de novo. Quinze minutos. O que vem depois é que ocupa espaço. Fico repassando a cena no carro, no almoço, no meio de uma conversa com a minha esposa, e às vezes enquanto o meu filho está falando comigo.
Esse tempo todo não muda nada para o cliente. E me tira da frente do que eu ainda tenho para fazer nas horas seguintes. Já reparei que a parte útil do incômodo aparece rápido e vai embora rápido. Ela me faz levantar e resolver. O resto fica girando sem destino.
Tenho TDAH diagnosticado desde 2017. O hiperfoco que me ajuda a mergulhar num trabalho por horas funciona igual quando o assunto é um erro meu. Ele agarra a cena e fica ali, voltando ao mesmo ponto, com uma riqueza de detalhe que não serve para nada. Já escrevi sobre como eu tento organizar o dia com essa cabeça em como eu organizo um dia de vendas.
Outra coisa que acontece comigo é confundir exigência com rigor. Gosto de desconforto, escolhi provas longas, e por muito tempo tratei a dureza interna como sinal de que eu estava sendo sério. Cobrar de mim com grosseria nunca me fez entregar mais rápido. Em geral me fez demorar para começar.
O que mudou o jogo foi separar o que eu faço do que eu sou. Errar um dado numa proposta é um problema de processo. Eu conferi rápido, confiei na memória, não reli antes de enviar. Isso tem conserto, e o conserto é uma checagem a mais. Quando o assunto vira quem eu sou, não existe o que arrumar, e a cabeça fica rodando sem ter como concluir.
Numa prova longa, quando o corpo começa a doer e ainda falta muita estrada, aparece a mesma narração. Você treinou errado. Você vai parar aqui. Você não devia ter se inscrito nisso. Na prova fica mais fácil reconhecer o que é aquilo, porque não tem para onde desviar. Eu estou ali, sozinho, ouvindo.
O que me ajuda no meio de uma prova é diminuir o tamanho do prazo. Chegar ao próximo posto, beber, comer alguma coisa, resolver o pé. Depois eu penso no resto. Escrevi sobre esse medo com nome e tudo em conviver com o medo de não terminar a BR135.
Em prova eu não consigo pensar nos 240 km de uma vez. Eu penso no próximo posto de hidratação. No trabalho tenho tentado parecido, só que ali o posto é a próxima ligação.
Nenhum desses itens é técnica de especialista. É o que eu tenho testado e consigo repetir em dia de correria.
O item que mais funciona é o último, e ele tem limite. Não dá para despejar todo dia no mesmo ouvido. Por isso o caderno virou a primeira parada, e a conversa fica para o que realmente pesa.
Comparar o meu erro com o acerto aparente de outra pessoa piora tudo, e sobre isso eu já escrevi em parar de me comparar com quem está em outra fase da vida.
Nada do que está aqui substitui acompanhamento profissional. Conversar com um psicólogo ajuda a enxergar o padrão de fora, e para quem convive com TDAH vale também o acompanhamento médico. Se o pensamento passar a vir com ideia de desistir da vida, não é caso de método caseiro. O CVV atende de graça pelo telefone 188, a qualquer hora, todos os dias.
Também não quero deixar a impressão de que isso está resolvido por aqui. Em semana apertada a voz ganha de mim algumas vezes. A diferença que eu noto hoje é o tempo que eu levo para perceber que entrei no loop. Antes passava o dia inteiro. Agora costumo notar em uma hora ou duas, e isso já me devolve a tarde.
Agradeço a Deus por essa percepção e pela paciência das pessoas que vivem comigo enquanto eu aprendo a falar comigo de um jeito melhor. Tenho pedido mais calma e menos pressa, e tenho recebido na medida em que consigo ouvir.
Se você quiser acompanhar os treinos e o projeto no dia a dia, eu posto por lá no Instagram. E se esse barulho na cabeça também é seu, me conta pela página de contato.
quem escreve
Pai, marido, trabalho com vendas e treino para ultramaratonas. Escrevo sobre disciplina enquanto ainda estou tentando. Ler o manifesto.
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Cada parcela parece pequena sozinha. Como venho tentando enxergar a fatura dos próximos meses antes de parcelar mais uma coisa.

O cliente diz que vai pensar e eu adio a ligação de volta por dias. Como venho tentando fazer o retorno no prazo, mesmo…

Pensar nos 240 km da BR135 de uma vez me trava. Como eu venho dividindo a preparação, a semana e o treino em pedaços…
