Pensar nos 240 km da BR135 de uma vez me trava. Como eu venho dividindo a preparação, a semana e o treino em pedaços que a cabeça aceita.
Por Patoloko, em 5 de novembro de 2026 · 5 min de leitura
Quando alguém me pergunta sobre a BR135, a reação costuma vir pelo número. São 240 km pelo Caminho da Fé, com cerca de 8.000 metros de subida acumulada. Eu entendo a reação, porque a minha primeira foi parecida. Fiquei olhando para aquele número sem conseguir imaginar o fim.
Com o tempo eu percebi que pensar na prova inteira de uma vez me faz mal. A conta não fecha na cabeça, e quando a conta não fecha eu fico ansioso, treino pior e durmo pior. Tenho TDAH, diagnosticado desde 2017, e a minha atenção já tem dificuldade com coisa grande e distante.
Então eu comecei a picar. A prova, a preparação, a semana, o treino. Escrevo aqui como estou fazendo isso, ainda no meio do caminho, sem saber se vai funcionar lá na estrada.
Eu uso os 240 km em dois momentos. Quando explico o projeto social, porque cada quilômetro vira uma cesta básica, e quando preciso lembrar por que estou acordando cedo. Fora disso, o número fica guardado.
Na hora de treinar, ele atrapalha. Se eu saio de casa pensando que aquele treino é uma fração pequena do que vou enfrentar, volto achando que fiz pouco, mesmo quando fiz exatamente o que estava planejado. Comparar o treino de uma terça-feira com a prova inteira é um jeito garantido de me sentir atrasado o tempo todo.
Por isso eu tento olhar só para o pedaço da vez. O treino de hoje tem começo, meio e fim. Ele cabe na minha manhã e cabe na minha cabeça.
Não tenho método sofisticado. São camadas, da maior para a menor, e eu tento me ocupar de uma de cada vez.
A última camada é a que mais uso nos dias difíceis. Quando o treino pesa, eu paro de pensar em quanto falta e penso só em chegar até ali na frente. Chegando, escolho outro ali na frente.
Uma prova dessa distância atravessa dia e noite, e eu sei que vou precisar me alimentar muitas vezes sem fome nenhuma. Dividir a prova em trechos me ajuda a lembrar disso. Pensar em comer durante a prova é vago demais para a minha cabeça. Pensar em comer a cada pedaço eu consigo cumprir.
Isso eu venho testando nos treinos longos, e ainda erro bastante. Cada corpo tem uma necessidade diferente, e o que serve para mim pode não servir para você. Se você também treina para distâncias longas, procure um educador físico e um nutricionista antes de montar a sua estratégia, e faça uma avaliação médica antes de aumentar o volume.
Tem dia em que até o treino de hoje parece impossível. Acordo cansado, a semana de vendas foi pesada, meu filho dormiu mal e eu também. Nesses dias eu diminuo o pedaço de novo. Sair de casa e fazer os primeiros quinze minutos vira o objetivo inteiro.
Quase sempre, depois dos quinze minutos, eu continuo. Às vezes não continuo e volto para casa, e isso também conta. Já escrevi sobre caminhar na subida sem achar que estou desistindo, e a lógica é parecida. Ajustar o tamanho do esforço ao que o corpo tem naquele dia me mantém treinando por mais tempo.
O risco é usar isso como desculpa para fazer sempre menos. Eu ainda não sei separar bem uma coisa da outra. Tem manhã em que eu diminuo o pedaço por cansaço de verdade e tem manhã em que diminuo por preguiça, e nem sempre percebo a diferença na hora.
Quando a distância inteira não cabe na cabeça, eu fico com o pedaço que cabe e vou trocando um pelo outro até acabar.
Dividir a prova também me lembra que eu não corro sozinho. O Além da Chegada começou em 2021 mantendo 24 famílias. Na BR135, cada quilômetro vira uma cesta básica de R$ 75 para uma família em situação de risco. A meta são 240 cestas, R$ 18.000 no total.
Quando eu penso nisso, os pedaços ganham peso. Aquele trecho é uma cesta. O próximo é outra. Fica mais fácil continuar quando eu lembro que cada quilômetro tem alguém esperando do outro lado.
Não sei como a minha cabeça vai reagir depois de muitas horas acordado, no escuro, com o corpo pedindo para parar. Tudo o que escrevi aqui vem de treino, e treino é diferente de prova. Pode ser que nessas horas qualquer estratégia suma e sobre só a teimosia.
Mesmo assim, prefiro chegar lá com algum jeito de organizar o caos. Se a divisão em pedaços me ajudar em metade dos momentos ruins, a preparação já terá valido. Falei um pouco desse receio no texto sobre conviver com o medo de não terminar a BR135.
Agradeço a Deus pelo corpo que ainda aguenta treinar e pela família que segura as pontas enquanto eu saio cedo. Muito do que me faz terminar cada pedaço vem daí.
Se você tem um jeito seu de encarar distâncias ou tarefas que parecem grandes demais, eu quero saber. Me acompanhe no Instagram ou escreva pela página de contato.
quem escreve
Pai, marido, trabalho com vendas e treino para ultramaratonas. Escrevo sobre disciplina enquanto ainda estou tentando. Ler o manifesto.
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