A maioria dos treinos que eu perco cai na véspera. O que eu deixo separado à noite para a manhã não virar negociação com a minha cabeça.
Por Patoloko, em 4 de novembro de 2026 · 5 min de leitura
Quando eu olho para os treinos que perdi nos últimos meses, a maioria caiu na noite anterior. Fui dormir sem saber onde estava o tênis, sem roupa separada e sem decidir o que ia fazer quando o despertador tocasse.
Tenho TDAH, diagnosticado desde 2017, e de manhã cedo a minha cabeça ainda não está inteira. Cada pequena decisão vira uma negociação. Qual meia, qual percurso, se vale a pena ir hoje. Basta uma dessas perguntas ficar sem resposta para eu voltar para a cama com uma justificativa que parece razoável.
Por isso eu passei a tratar a noite como parte do treino. Escrevo aqui o que tenho feito, o que funciona mais ou menos e onde eu ainda escorrego.
Durante muito tempo eu achei que disciplina era acordar e ir, sem pensar. Na prática o pensamento aparecia do mesmo jeito, só que na pior hora possível. De madrugada, deitado, com a casa em silêncio, qualquer argumento contra o treino ganha fácil.
Hoje eu tento decidir tudo à noite. Antes de deitar eu já sei o que vou fazer na manhã seguinte, por quanto tempo e por onde. Se o plano for de descanso, eu também decido isso à noite, para não transformar a preguiça da manhã em descanso planejado depois do fato.
Parece pouco, e para mim mudou bastante coisa. Tirou da manhã o único momento em que eu poderia desistir sem nem perceber que estava desistindo.
A lista é curta e não tem nada de especial. O que conta é ela estar pronta antes de eu ir dormir, num lugar onde eu tropeço nela ao acordar.
Nos treinos mais longos eu acrescento o colete montado, com tudo que precisa ir dentro dele. Montar colete de madrugada é a forma mais garantida que eu conheço de sair atrasado e esquecer alguma coisa importante pelo caminho.
Isso não acontece todo dia. Tem noite em que eu chego cansado do trabalho, a casa ainda está agitada, meu filho demora para dormir e eu simplesmente esqueço. Ou lembro e empurro para amanhã, achando que resolvo em cinco minutos quando acordar.
Nessas manhãs a diferença aparece rápido. Eu demoro mais para sair, saio pior ou não saio. Já parei de me xingar por isso. A minha cabeça lida mal com dez decisões pequenas num horário em que ela ainda não acordou direito, e a noite mal preparada só deixa isso à mostra.
Quando a noite foge, eu tento preparar o mínimo. Só o tênis na porta e a roupa em cima dele, coisa de dois minutos. Escrevi sobre esse tipo de ajuste no texto sobre recomeçar na terça sem esperar a segunda-feira, e a lógica é parecida. Fazer menos do que o ideal ainda conta como fazer.
Depois de um tempo eu percebi que o mesmo truque servia fora da corrida. No trabalho, quando eu deixo anotadas na véspera as primeiras ligações que preciso fazer, o dia começa andando. Quando eu não deixo, passo a primeira hora reorganizando lista, abrindo e-mail e mudando de ideia sobre por onde começar. Contei um pouco disso em como eu organizo um dia de vendas com a cabeça que eu tenho.
Em casa funciona do mesmo jeito com as coisas do dia seguinte. Quanto mais fica resolvido à noite, menos a manhã vira correria para todo mundo, e menos eu saio de casa já devendo paciência para alguém.
A disciplina que eu consigo manter costuma acontecer na noite anterior, em dois minutos, sem ninguém ver.
Eu demorei para enxergar isso porque preparar a véspera não tem nada de heroico. Ninguém tira foto da roupa dobrada em cima do tênis. Mesmo assim, é ali que a maior parte dos meus treinos começa de verdade.
Tem um risco nisso que eu demorei a notar. Preparar tudo à noite pode virar mais uma forma de ansiedade. Já fiquei acordado além da conta conferindo coisa que não precisava, e isso come o sono, que é justamente o que eu mais corto quando a semana aperta. Dormir menos para treinar melhor não fecha a conta.
Outra coisa é que deixar tudo pronto não garante sair. Já acordei com tudo arrumado na porta e mesmo assim fiquei, porque o corpo estava pedindo pausa. Nesses dias a preparação me ajuda a separar cansaço de preguiça. A desculpa logística some e sobra só o que o corpo está dizendo.
Volume, intensidade e descanso eu combino com quem entende do assunto. Se você está começando ou voltando a correr, procure um educador físico e faça uma avaliação médica antes de aumentar a carga. E se a dificuldade para começar o dia vai além da preguiça comum, conversar com um psicólogo ou psiquiatra faz diferença. Se estiver pesado de um jeito mais sério, o CVV atende de graça pelo telefone 188, a qualquer hora.
Ainda estou ajustando. Tem semana em que a rotina da noite anda sozinha, e tem semana em que ela some e eu só percebo quando já perdi dois treinos seguidos. Hoje, pelo menos, eu sei onde procurar quando a coisa desanda. Quase sempre o problema começou na véspera.
Com a BR135 pela frente, 240 km pelo Caminho da Fé, isso pesa mais. Cada treino que eu deixo de perder por bobagem é preparação que fica guardada no corpo. E cada quilômetro dessa prova vira uma cesta básica no Além da Chegada, o que me dá motivo de sobra para não desperdiçar manhã por causa de uma meia perdida.
Agradeço a Deus pela saúde para treinar e pela casa que me espera quando eu volto. Tem dia em que lembrar disso já me tira da cama.
Se você também briga com as manhãs, me conta como faz. Estou no Instagram e também respondo pela página de contato.
quem escreve
Pai, marido, trabalho com vendas e treino para ultramaratonas. Escrevo sobre disciplina enquanto ainda estou tentando. Ler o manifesto.
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