Recomeçar na terça sem esperar a segunda-feira

Eu tinha o hábito de deixar o recomeço para a segunda-feira. Como estou tentando voltar no dia seguinte quando a semana sai do trilho.

Por Patoloko, em 27 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

Patoloko correndo em uma estrada ao amanhecer, com o céu alaranjado ao fundo

Eu tenho um hábito antigo de jogar o recomeço para a segunda-feira. A semana sai do trilho na quarta, eu perco um treino, depois perco outro, durmo tarde, como mal, e a cabeça decide sozinha que agora só vale a pena voltar na semana que vem. Como se os dias até lá estivessem perdidos de qualquer jeito.

Durante muito tempo achei que isso era organização. Começar do zero, com a planilha limpa, parecia mais sério do que remendar uma semana torta. Hoje desconfio bastante desse raciocínio. Na prática, esperar a segunda transformava um treino perdido em cinco dias parados.

Hoje é terça, e resolvi escrever sobre como estou tentando recomeçar a rotina no dia seguinte ao tropeço. Escrevo de quem ainda cai nesse padrão com alguma frequência e está saindo dele aos poucos.

Como uma semana sai do trilho

Quase nunca acontece por uma coisa grande. É uma reunião que atrasa, uma noite em que meu filho acorda várias vezes, um dia de trabalho que termina com a cabeça fervendo. Eu perco o treino da manhã seguinte porque não consegui levantar. Até aí, nada demais. Acontece com todo mundo que tem casa, filho e emprego.

O problema começa no dia depois. Com um treino a menos, a semana já não fecha do jeito que eu tinha planejado. Aí vem a conta mental de sempre. Se eu não vou cumprir tudo, para que cumprir uma parte? E eu deixo de fazer o que ainda dava para fazer.

Com o TDAH, esse tudo ou nada aparece com mais força. Quando estou animado, quero fazer tudo de uma vez e com intensidade. Quando falho em um pedaço, a sensação é de que o plano inteiro desabou. Levei anos para perceber que esse movimento é previsível em mim, e ainda mais tempo para começar a agir antes que ele tome conta da semana.

A promessa da segunda-feira

Esperar a segunda tem um conforto que eu entendo bem. Ela promete uma versão de mim que acorda cedo, treina, come direito, organiza a agenda e responde todas as mensagens. É uma ideia bonita, e por ser bonita fica fácil de adiar.

Essa versão nunca chegou inteira. Na segunda de verdade tem trabalho acumulado, tem a casa, tem o cansaço da semana anterior que eu não resolvi. Muitas vezes eu chegava na segunda com mais peso nas costas do que se tivesse voltado na quinta, com um treino curto e sem pretensão nenhuma.

Escrevi um tempo atrás que disciplina tem mais a ver com manter o combinado do que com fazer coisas heroicas. Recomeçar no meio da semana entra nessa mesma ideia. O combinado que eu fiz comigo continua valendo numa quinta-feira à tarde, mesmo que a quarta tenha sido ruim.

O jeito que estou tentando voltar

Não tenho método pronto. Tenho algumas regras que testo, ajusto e às vezes esqueço. Elas me ajudaram mais do que qualquer plano novo montado no domingo à noite.

  • Voltar no próximo dia possível. Se perdi o treino de hoje, o próximo treino é amanhã, do jeito que estiver na planilha. Sem esperar a semana virar.
  • Aceitar uma versão menor. Se o dia está apertado, saio para trinta minutos leves. Conta como volta, e para mim isso já resolve boa parte do problema.
  • Não dobrar a carga para recuperar. Já tentei correr o dobro no fim de semana para tapar o buraco e só ganhei cansaço e dor.
  • Arrumar uma coisa de cada vez. Quando tudo está bagunçado, escolho um ponto só. Dormir mais cedo hoje, por exemplo. O resto entra nos dias seguintes.
  • Anotar o que aconteceu. Uma linha no caderno dizendo por que eu falhei me ajuda a enxergar padrões que a culpa esconde.

A regra de não compensar foi a mais difícil para mim. Em vendas, às vezes dá para correr atrás da meta no fim do mês, e eu levei esse costume para o treino sem pensar muito. O corpo cobra esse atraso com dor e cansaço que demoram a passar. Falei um pouco disso em o dia de descanso que eu sempre quero pular.

Quem treina para provas longas faz bem em montar e ajustar a planilha com um educador físico, e em procurar um médico quando uma dor insiste. Eu dependo dessa ajuda para não inventar moda quando a semana desanda.

O peso da culpa

Quando falho, a primeira coisa que aparece é uma conversa interna pesada. Eu me chamo de fraco, lembro de todas as outras vezes em que parei, faço a conta de quanto falta para a BR135. Nada disso me leva para a rua no dia seguinte. Pelo contrário, me faz evitar a planilha, o relógio e qualquer coisa que me lembre do treino perdido.

Percebi que a culpa me mantinha longe por mais tempo do que o próprio motivo da falha. A noite mal dormida passava em um dia. A vergonha de ter parado ficava a semana inteira.

Um treino perdido custa um treino. Uma semana esperando a segunda-feira custa a semana inteira, e quase sempre um pouco da confiança que eu tinha em mim.

Hoje tento tratar a falha como informação. Dormi pouco, perdi o treino, amanhã volto. Quando consigo pensar desse jeito seco, sem drama, a volta fica bem mais simples.

Recomeçar dentro de casa

Esse modo de esperar a segunda também aparece em casa. Quando a semana desanda, eu costumo ficar mais fechado e mais irritado, e quem convive comigo sente antes de mim. A bagunça na rotina de treino vira bagunça no humor, e o humor chega na mesa do jantar.

Tenho pensado muito no que meu filho vai aprender me vendo lidar com erro. Ele ainda é pequeno, mas um dia vai perceber se o pai some depois de tropeçar ou se levanta no dia seguinte e segue. Prefiro que ele veja a segunda opção, mesmo que feita de um jeito torto, com treino curto e cara de sono.

Também ajuda falar em voz alta. Quando digo em casa que perdi o treino e que volto amanhã, a frase vira um combinado com mais alguém. Fica mais difícil empurrar para a segunda.

Onde isso me deixa hoje

A BR135 está chegando, com 240 km pelo Caminho da Fé, e eu sei que ainda vou ter semanas tortas até lá. Algumas por cansaço, outras por trabalho, outras porque a vida de uma família não segue planilha. Tenho dúvida se vou conseguir manter essa regra de voltar no dia seguinte em todas elas. Por enquanto, tenho conseguido mais vezes do que antes.

Agradeço a Deus pela saúde para treinar e pela paciência que Ele me dá nos dias em que eu mesmo não tenho nenhuma comigo. Cada recomeço pequeno eu entendo como um presente.

Se você também costuma esperar a segunda-feira para voltar, me conta como lida com isso. Pode me escrever pela página de contato ou acompanhar a preparação para a BR135 no Instagram. E se quiser entender quem está escrevendo, a história está em sobre mim.

quem escreve

Patoloko

Pai, marido, trabalho com vendas e treino para ultramaratonas. Escrevo sobre disciplina enquanto ainda estou tentando. Ler o manifesto.

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