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O dia de descanso que eu sempre quero pular

O dia de descanso está na planilha e eu sempre quero pular. Como venho tentando respeitar a recuperação na preparação para a BR135.

Por Patoloko, em 25 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

Close de Patoloko com chapéu e colete de hidratação, olhar concentrado, durante a Ultra BM 75K de 2026

Eu tenho um problema com o dia de descanso. Ele está na planilha, eu sei por que ele existe, e mesmo assim acordo nesse dia com vontade de sair para correr. Às vezes saio. Digo para mim mesmo que vai ser só um trote leve, e o trote leve vira um treino de verdade.

Com a BR135 no horizonte, 240 quilômetros e cerca de 8.000 metros de subida acumulada pelo Caminho da Fé, essa mania ficou mais cara. Quanto maior a prova, maior a carga dos treinos, e maior a conta que o corpo cobra quando eu não deixo ele se recuperar. Estou tentando levar o descanso tão a sério quanto levo o treino longo do fim de semana. Ainda não consegui, e escrevo sobre isso justamente porque estou no meio da tentativa.

Antes de qualquer coisa, um aviso. Eu não sou educador físico nem médico, e o que está aqui é a minha experiência. Quem define quanto descansar, e quando, é um profissional que conhece o seu corpo e o seu histórico. Se você treina para provas longas, procure um educador físico e faça seus exames com um médico do esporte.

Por que parar me incomoda tanto

Tenho TDAH diagnosticado desde 2017. Uma das coisas que percebi sobre mim depois do diagnóstico é que a inquietação física pesa muito no meu dia. Quando eu corro, a cabeça fica mais organizada. Quando eu paro, ela acelera. Então o dia sem treino costuma ser um dia em que me sinto mais disperso, mais irritado, com a sensação de que alguma coisa ficou por fazer.

Já escrevi aqui sobre o gosto que eu tenho pelo desconforto. O descanso entra nessa conta de um jeito estranho. Correr cansado eu tolero bem. Ficar parado com o corpo pedindo movimento me custa bem mais.

Também tem a cabeça de vendas. Eu convivo com meta mensal, e esse jeito de pensar invade o treino. Olho para a semana como um placar de quilômetros, e um dia sem número parece um dia perdido. Meu tempo de treino já é espremido entre trabalho e família, então quando aparece uma janela livre e eu não uso para correr, bate a culpa. Essa lógica faz sentido na hora e quase nunca faz sentido uma semana depois.

O que acontece quando eu ignoro o descanso

O padrão se repete. Pulo um descanso, depois outro, e por alguns dias me sinto forte, até orgulhoso. Aí começa o desgaste. Acordo com as pernas pesadas, o ritmo que era confortável fica difícil, o humor piora, e eu durmo mal mesmo cansado. No trabalho a paciência diminui. Em casa também, e quem sente primeiro é quem está mais perto de mim.

O mais chato é que esse cansaço acumulado não aparece de uma vez. Ele chega aos poucos, misturado com a rotina, e eu demoro para ligar uma coisa à outra. Quando finalmente percebo, já preciso parar mais dias do que teria parado se tivesse respeitado a planilha desde o começo.

Os sinais que eu tento observar

Hoje eu tento prestar atenção em alguns sinais antes de decidir se o dia é de treino ou de descanso. São coisas que eu reparo em mim e anoto, sem nenhum valor de diagnóstico:

  • Pernas pesadas logo de manhã, antes de qualquer esforço.
  • Sono ruim por duas ou três noites seguidas.
  • Irritação fora do normal com coisas pequenas, em casa ou no trabalho.
  • Um ritmo fácil que de repente parece pesado.
  • Vontade de pular o treino, que em mim é rara e por isso chama atenção.
  • Dores que mudam de lugar ou que não somem depois de um dia.

Quando dois ou três desses aparecem juntos, eu reduzo o treino em vez de insistir. Se não melhora, busco orientação profissional. Dor que não passa vai para o médico, sem eu tentar resolver sozinho na base do achismo.

Descansar também dá trabalho

Demorei para entender que descansar bem exige alguma organização. Se o dia de descanso vira o dia em que eu durmo tarde, como qualquer coisa e passo horas no celular, ele não cumpre o papel dele. Eu só troquei um tipo de desgaste por outro.

Já contei aqui que o sono é a primeira coisa que eu corto quando a semana aperta. No dia de descanso eu tento fazer o contrário e proteger o sono antes de tudo. Deitar mais cedo, deixar o celular longe da cama, comer com um pouco mais de atenção. São coisas simples, e ainda assim eu erro bastante.

Às vezes o descanso inclui movimento leve, uma caminhada com a família, um alongamento sem pressa. Isso varia de pessoa para pessoa e de fase para fase do treino, e é o tipo de decisão que vale tomar junto com um educador físico. Eu já me enganei muitas vezes achando que estava bem.

Pensar na BR135 me ajuda a parar

O que mais tem me ajudado a respeitar o descanso é a própria prova. A BR135 é longa demais para eu chegar nela já desgastado. Cada semana em que eu treino cansado aumenta o risco de uma lesão que me tire da largada, e essa prova carrega muito mais do que a minha vontade de terminar.

A campanha do Patoloko, Além da Chegada transforma cada quilômetro em uma cesta básica para uma família em situação de risco. A meta é de 240 cestas, de R$ 75 cada, R$ 18.000 no total. Quando eu penso que um treino a mais por teimosia pode me custar a prova, o descanso fica mais fácil de aceitar. Eu preciso chegar inteiro na largada.

Ainda tenho dificuldade de ver o dia parado como parte do treino. Estou tentando tratar esse dia com a mesma seriedade que dou ao treino longo.

O que eu estou tentando fazer diferente

Estou testando algumas coisas, e algumas funcionam melhor do que antes. Marco o descanso na agenda do mesmo jeito que marco o treino, para ele não parecer um buraco no dia. Uso esse tempo para coisas que normalmente ficam de lado, como jantar com calma com minha esposa e meu filho ou deitar no horário. E quando a vontade de correr aparece, eu espero algumas horas antes de decidir. Na maioria das vezes ela passa.

Tem semana em que eu cumpro tudo. Tem semana em que eu quebro o combinado logo no primeiro dia. Ainda estou aprendendo a separar disciplina de teimosia, e acho que vou continuar aprendendo por um bom tempo.

Agradeço a Deus por ter um corpo que aguenta treinar e por uma família que me acolhe nos dias em que eu estou cansado e de mau humor. Isso eu não conquistei sozinho.

Se você também tem dificuldade de parar, quero saber como lida com isso. Acompanhe a preparação para a BR135 no Instagram ou mande uma mensagem pela página de contato.

quem escreve

Patoloko

Pai, marido, trabalho com vendas e treino para ultramaratonas. Escrevo sobre disciplina enquanto ainda estou tentando. Ler o manifesto.

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