TDAH, intensidade e o gosto pelo desconforto

Tenho TDAH diagnosticado desde 2017 e sempre gostei de atividades que exigem concentração, intensidade e algum desconforto. Não acho que seja coincidência.

Por Patoloko, em 19 de setembro de 2026 · 5 min de leitura

Corredor em movimento na trilha ao entardecer, imagem com desfoque

Tenho TDAH diagnosticado desde 2017. Isso faz parte da maneira como eu experimento quase tudo: o trabalho, a família, o treino e até a forma como escrevo este site.

Antes de continuar: este é um relato pessoal, não informação médica. Se você se identifica com algo aqui, procure um psiquiatra ou psicólogo para uma avaliação de verdade.

De onde vem o apelido

Minha relação com o esporte vem de muito antes das ultramaratonas. Já passei pelo paraquedismo, pelo jiu-jitsu, pelo kart e por outras coisas que provavelmente ajudaram a construir o apelido Patoloko.

Olhando para essa lista, dá para perceber um padrão. Sempre tive interesse por atividades que exigem concentração, intensidade e algum nível de desconforto. Não tenho uma explicação muito sofisticada para isso. Simplesmente sempre fui assim.

Foco que só aparece sob pressão

Uma coisa que eu percebo em mim é que algumas atividades conseguem prender minha atenção de um jeito que a rotina comum raramente consegue. Num salto, numa luta ou numa descida técnica de trilha, não existe espaço para a cabeça ir para outro lugar. O desconforto e a intensidade organizam a atenção.

Não sei até que ponto isso tem a ver com o TDAH e até que ponto é só o meu jeito. Provavelmente as duas coisas se misturam. O que sei é que esse tipo de experiência sempre me fez bem.

Sempre tive interesse por atividades que exigem concentração, intensidade e algum nível de desconforto.

O lado difícil

Seria desonesto falar só do lado bom. A mesma cabeça que se concentra na intensidade tem dificuldade com o que é repetitivo e sem graça. E a vida adulta tem muita coisa repetitiva e sem graça: contas, e-mails, burocracia, a rotina da casa.

Por isso tanta gente com TDAH se identifica com a ideia de começar mil projetos e terminar poucos. A novidade anima; a manutenção cansa. E disciplina, pelo menos do jeito que eu entendo, é justamente sobre manutenção.

O que tem me ajudado

Não é receita, é o que tem funcionado para mim hoje:

  • Estrutura externa. Planilha de treino, calendário compartilhado, lembretes. Quanto menos eu dependo da memória, melhor.
  • Tarefas menores. Um projeto grande vira várias entregas curtas. Cada uma tem começo e fim, como um treino.
  • O treino como regulador. Nos dias em que eu treino, costumo lidar melhor com o resto. Não é mágica, mas é um padrão que se repete.
  • Menos culpa, mais ajuste. Quando eu perco o fio, tento recomeçar rápido em vez de gastar energia me cobrando.

Como o esporte organiza a cabeça

Tem uma coisa que eu percebo com clareza: nos períodos em que eu treino com regularidade, a vida em volta fica mais organizada. Não sei explicar tudo, mas tenho algumas hipóteses. O treino dá uma estrutura fixa ao dia. Ele consome uma parte da energia que, de outro jeito, viraria inquietação. E ele me dá uma sensação concreta de progresso, algo que nem sempre aparece em outras áreas da vida.

Quando eu paro de treinar por muito tempo, por lesão ou por excesso de trabalho, a diferença aparece rápido: mais dispersão, mais irritação, mais dificuldade para terminar o que comecei.

O perigo de transformar tudo em intensidade

Existe um cuidado que eu preciso ter. Gostar de intensidade pode virar uma armadilha. Dá para usar a intensidade para fugir do que é chato, para evitar as tarefas repetitivas, para buscar o próximo desafio antes de terminar o atual. Nem toda coisa difícil é boa, e nem toda busca por desconforto é saudável.

Com o tempo, tenho tentado usar a intensidade com mais propósito. Ela continua fazendo parte de quem eu sou, mas agora eu me pergunto com mais frequência para que ela está servindo. Às vezes é para crescer. Às vezes é só para fugir.

Para quem se identifica

Se você leu até aqui e se reconheceu em alguma parte, a sugestão mais útil que eu posso dar é: procure avaliação profissional. Um diagnóstico bem feito muda a forma como a gente entende o próprio comportamento e abre caminhos de tratamento que fazem diferença. O meu veio em 2017. Entender o que está acontecendo costuma ajudar a trocar a cobrança por estratégias que funcionam de verdade.

O que eu gostaria que mais gente entendesse

TDAH não é falta de esforço nem preguiça disfarçada. Também não é só distração. Em muitos casos, é uma forma diferente de o cérebro lidar com atenção, motivação e rotina. Entender isso não serve como desculpa para tudo, mas ajuda a trocar a culpa por estratégias que funcionam.

No meu caso, parte dessas estratégias está no esporte e parte na organização da rotina. Para quem precisa, o acompanhamento profissional completa essa conta. Nenhuma estratégia sozinha resolve. Juntas, ajudam a transformar uma característica que às vezes atrapalha em algo que também me move. E é por isso que resolvi falar sobre o assunto aqui, com a mesma honestidade dos outros temas.

Intensidade com propósito

Com as ultramaratonas, o gosto pelo desconforto ganhou outro sentido. Algumas provas passaram a ser também uma forma de arrecadar alimentos para famílias em situação de risco. A intensidade continua lá, mas agora produz alguma coisa além da minha satisfação pessoal. Conto mais em Correr por quem precisa: como nasceu o Além da Chegada.

Falar de TDAH publicamente ainda é um pouco estranho para mim. Mas faz parte do que quero registrar aqui: não a versão organizada depois da chegada, e sim a rotina real de alguém que continua tentando. Sobre saúde mental, também escrevi este texto.

quem escreve

Patoloko

Pai, marido, trabalho com vendas e treino para ultramaratonas. Escrevo sobre disciplina enquanto ainda estou tentando. Ler o manifesto.

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