O Patoloko surgiu de uma inquietação que eu tenho há bastante tempo com boa parte do conteúdo sobre disciplina, performance e mentalidade que encontro por aí. Não necessariamente porque esse conteúdo seja ruim, mas porque muitas vezes ele parte de uma realidade que não é a minha e, acredito, também não é a realidade de muita gente.
Tenho 39 anos, sou pai, marido, trabalho com vendas e tenho uma carreira que ainda estou construindo. Tenho metas profissionais, responsabilidades financeiras, uma família que precisa de mim e objetivos pessoais que não quero abandonar só porque a vida ficou mais complicada. No meio disso, treino para ultramaratonas e tento cuidar da minha saúde física e mental. Nem sempre consigo conciliar tudo. Na verdade, boa parte do tempo estou justamente tentando descobrir como fazer isso.
Quando vejo alguém falando sobre disciplina, normalmente encontro dois extremos. De um lado, pessoas mais novas, muitas vezes sem filhos e com uma liberdade de organizar a rotina que eu simplesmente não tenho. Do outro, pessoas que já alcançaram uma condição financeira e profissional que permite olhar para a própria trajetória com uma perspectiva diferente. São experiências válidas e certamente existe muito a aprender com elas. O que sentia falta era de acompanhar alguém que ainda estivesse no meio do processo.
Alguém que ainda precisasse bater meta no final do mês, pagar as contas, pensar no futuro financeiro da família, cuidar do casamento, estar presente na criação do filho e encontrar algumas horas na semana para treinar. Alguém que não tivesse resolvido tudo isso antes de começar a falar sobre o assunto.
É desse lugar que nasce o Patoloko.
Não tenho intenção de transformar minha vida em um modelo a ser seguido. Existem coisas que faço bem e muitas que faço mal. Já tomei decisões das quais me orgulho e outras que, olhando para trás, não repetiria. Tenho períodos em que consigo manter uma rotina muito boa e outros em que trabalho demais, treino menos do que gostaria, gasto mais do que deveria ou simplesmente não consigo dar atenção suficiente para tudo.
Isso faz parte daquilo que quero registrar aqui.
Disciplina me interessa porque, com o tempo, percebi que ela está presente em praticamente todas as áreas importantes da minha vida. Está no esporte, obviamente, mas também está no trabalho, no dinheiro, na família e nas decisões menos interessantes do cotidiano. Para mim, disciplina deixou de ser aquela ideia de fazer coisas difíceis simplesmente porque são difíceis. Hoje ela tem muito mais relação com conseguir manter compromissos ao longo do tempo, inclusive quando ninguém está vendo e quando não existe nenhum reconhecimento envolvido.
A ultramaratona talvez seja a manifestação mais visível disso, mas não necessariamente a mais difícil. Correr por muitas horas exige preparação, constância e disposição para continuar quando o corpo está cansado. Ao mesmo tempo, existem dias em que sair para treinar é muito mais fácil do que permanecer em casa e assumir outras responsabilidades. Com o tempo, comecei a entender que disciplina também envolve saber qual dessas escolhas precisa ser feita.
Minha relação com esporte vem de muito antes das ultramaratonas. Já passei pelo paraquedismo, jiu-jitsu, kart e outras coisas que provavelmente ajudaram a construir o apelido Patoloko. Tenho TDAH diagnosticado desde 2017, o que também faz parte da maneira como experimento tudo isso. Sempre tive interesse por atividades que exigem concentração, intensidade e algum nível de desconforto. Não tenho uma explicação muito sofisticada para isso. Simplesmente sempre fui assim.
Com as ultramaratonas, porém, comecei a enxergar outra possibilidade. Algumas provas passaram a ser também uma forma de arrecadar alimentos para famílias em situação de risco. Isso mudou um pouco minha relação com os desafios que escolho enfrentar. Continuo gostando da prova, da distância, da preparação e da dificuldade, mas gosto ainda mais quando aquilo que estou fazendo consegue produzir alguma coisa além da minha satisfação pessoal.
O Patoloko também nasce dessa mudança.
Não quero falar apenas sobre quantos quilômetros corri ou sobre como acordar cedo. Quero falar sobre o contexto em que essas coisas acontecem. Sobre o treino que precisa conviver com o trabalho. Sobre a ambição profissional que precisa conviver com a paternidade. Sobre dinheiro para quem ainda está construindo patrimônio. Sobre saúde mental para quem não pode simplesmente desaparecer durante algumas semanas para colocar a vida em ordem. Sobre tentar fazer escolhas melhores dentro de uma rotina que nem sempre permite a escolha ideal.
Também quero falar sobre os erros.
Existe uma tendência natural de contar nossa história depois que alguma coisa dá certo. Quando fazemos isso, tudo parece mais organizado do que realmente foi. As decisões parecem conscientes, os erros parecem aprendizados planejados e os momentos de dúvida acabam ocupando muito menos espaço do que ocuparam enquanto estavam acontecendo.
Prefiro fazer diferente.
Quero escrever enquanto as coisas ainda estão acontecendo. Enquanto ainda tenho dúvidas sobre dinheiro, carreira, esporte, paternidade e sobre a maneira como organizo minha própria vida. Isso significa que algumas opiniões podem mudar. Algumas estratégias que funcionam hoje podem não funcionar daqui a alguns anos. Algumas coisas que eu defender aqui talvez sejam revistas depois.
Não vejo problema nisso. Este site não pretende ser um manual.
Também não pretendo transformar disciplina em solução para todos os problemas. Existem circunstâncias que não se resolvem acordando mais cedo, trabalhando mais ou tendo mais força de vontade. Existem limites financeiros, familiares, profissionais, físicos e emocionais que precisam ser respeitados. A vida adulta tem variáveis que não desaparecem porque decidimos ser mais disciplinados.
O que acredito é que ainda existe bastante espaço de decisão dentro dessas limitações. E é esse espaço que me interessa explorar.
Como trabalhar melhor sem permitir que o trabalho ocupe tudo. Como treinar seriamente tendo pouco tempo disponível. Como melhorar a relação com dinheiro enquanto ainda estamos ganhando e construindo patrimônio. Como continuar tendo objetivos individuais depois de formar uma família. Como ser um pai presente sem abandonar completamente quem você era antes de ser pai. Como envelhecer mantendo saúde, curiosidade, ambição e disposição para fazer coisas difíceis.
Não tenho respostas definitivas para essas perguntas. Tenho algumas experiências, alguns erros, algumas coisas que funcionaram e vontade de continuar testando.
É isso que pretendo compartilhar aqui.
O Patoloko é um espaço para acompanhar esse processo enquanto ele acontece. Não a trajetória organizada depois da chegada, mas a rotina de alguém que continua trabalhando, criando filho, cuidando do casamento, treinando, pagando contas, fazendo planos, mudando de ideia e tentando melhorar algumas coisas sem fingir que consegue melhorar todas ao mesmo tempo.
Se você também está vivendo essa fase da vida, provavelmente alguns desses assuntos vão fazer sentido para você.
Não porque eu tenha descoberto como fazer.
Mas porque também estou tentando.
O blog é onde esse processo fica registrado, texto a texto. E o Além da Chegada é o lado do Patoloko que transforma algumas provas em arrecadação de alimentos.
