Tem uma coisa que eu só percebo quando a fatura do cartão chega. Ela vem maior do que eu esperava, e eu não lembro de ter comprado quase nada no mês. Aí eu abro o detalhamento e encontro a fila de sempre, parcela 3 de 10, parcela 5 de 6, parcela 2 de 12. Coisas que eu comprei faz tempo e que já nem lembro direito.
Nenhuma delas assusta sozinha. Por isso eu aceitei cada uma no dia da compra. O problema aparece quando elas se encontram na mesma fatura, junto com o mercado, a gasolina e o que mais o mês pedir.
Escrevo isso ainda aprendendo a lidar com o assunto. Tenho TDAH diagnosticado desde 2017, trabalho com vendas e a renda da casa varia de um mês para o outro. Essa combinação deixa o parcelamento perigoso para mim de um jeito bem específico.
Quando eu olho uma compra parcelada, eu vejo o valor da parcela e esqueço o resto. Minha cabeça compara aquele número com o que tenho hoje na conta e conclui que cabe. Ela não faz a conta do mês que vem, nem a do outro, e muito menos soma com o que já está correndo.
Com TDAH isso fica pior. O futuro é meio embaçado para mim. O que vai acontecer daqui a quatro meses parece problema de outra pessoa. Já escrevi sobre a compra por impulso que a minha cabeça sempre justifica, e o parcelamento é o lugar onde esse impulso se esconde melhor. O cartão aprova, a loja embrulha e a conta chega em pedaços, quando eu já esqueci da compra.
Também tem o lado de vendas. Eu sei como uma oferta em parcelas é montada, porque já estive do outro lado da mesa muitas vezes. Mesmo sabendo, eu caio. Conhecer a técnica ajuda pouco quando estou cansado e quero muito alguma coisa.
Em vendas tem mês bom e mês fraco. No mês bom, parcelar parece tranquilo. Eu olho para a comissão e penso que dá. Só que a parcela não sabe que o mês seguinte pode ser fraco. Ela vem igual.
Foi assim que eu entendi que cada parcela é uma decisão sobre um mês que eu ainda não conheço. Quando parcelo em dez vezes, estou prometendo um pedaço de dez salários que eu não sei quanto vão ser. Falei mais sobre esse vai e vem no texto sobre organizar a casa com um salário que muda todo mês.
E a conta não é só minha. O que eu comprometo lá na frente sai do mesmo lugar de onde sai o mercado da família e as coisas do meu filho.
Não tenho um método bonito. Tenho alguns hábitos que fui testando e que estão ajudando mais do que eu esperava.
Nada disso funciona todo dia. Tem semana em que eu pulo tudo e parcelo do mesmo jeito. Mas a lista no celular, pelo menos, me faz enxergar o tamanho da fila.
Eu não acho que parcelar seja sempre errado. Tem coisa que precisa ser comprada e não cabe à vista. Um tênis de corrida quando o outro já acabou, um conserto que não dá para adiar, uma despesa da casa que apareceu sem aviso. Nesses casos, dividir o valor é uma forma de não desmontar o mês.
A pergunta que eu tento fazer é se eu compraria aquilo mesmo sem a opção de parcelar. Quando a resposta é não, normalmente é o impulso falando, e eu deixo a decisão para o dia seguinte.
Cada parcela que eu aceito hoje é um pedaço de um mês que eu ainda não vivi.
Essa frase fica anotada no celular, logo acima da lista. Ela me segura mais do que qualquer planilha que eu já tentei manter e abandonei na segunda semana.
Às vezes eu chego tarde e a fila já está montada. Nesses meses, o que eu faço é parar de somar coisas novas e deixar as parcelas irem terminando. Demora e não tem graça nenhuma. Mas a cada mês uma delas sai da fatura, e eu vou sentindo o espaço voltar aos poucos.
Também tento ser honesto em casa. Avisar que a fatura veio alta antes de alguém descobrir sozinho evita muita tensão. Essa conversa ainda me deixa desconfortável, e mesmo assim eu prefiro ter do que esconder.
Se a situação aperta a ponto de as contas não fecharem mais, vale procurar um planejador financeiro de confiança. Eu não sou especialista, e o que escrevo aqui é o que tem funcionado na minha casa. Uma pessoa de fora enxerga a conta sem a culpa e sem o otimismo que eu coloco nela.
Eu continuo parcelando coisas que não deveria. Continuo me surpreendendo com a fatura em alguns meses. O que mudou é que agora eu abro a tela dos meses futuros com mais frequência e consigo segurar uma ou outra compra antes de ela virar mais uma linha na fila.
Agradeço a Deus por ter o que colocar na mesa todo mês, inclusive nos meses em que a conta aperta. Isso me lembra que cuidar do dinheiro de casa é cuidar de quem depende dele.
Esse cuidado com números também ajuda no Além da Chegada. Cada cesta custa R$ 75, e saber quanto custa cada coisa é o que me permite buscar as 240 cestas da campanha da BR135 com os pés no chão.
Se você também tem uma fila de parcelas que esquece que existe, me conta como lida com ela. Eu acompanho e respondo pelo Instagram ou pela página de contato.
quem escreve
Pai, marido, trabalho com vendas e treino para ultramaratonas. Escrevo sobre disciplina enquanto ainda estou tentando. Ler o manifesto.
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