Como eu organizo um dia de vendas com a cabeça que eu tenho

Fui diagnosticado com TDAH em 2017 e trabalho com vendas. Este é o jeito que venho tentando para atravessar o dia sem deixar cliente pelo caminho.

Por Patoloko, em 29 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

Patoloko no escritório, de headset, com os pés apoiados na mesa e fazendo sinal de V com as duas mãos

Fui diagnosticado com TDAH em 2017. Na época eu já trabalhava com vendas, e muita coisa que eu achava ser defeito de caráter ganhou outro nome. O retorno prometido e esquecido, a proposta começada e largada pela metade, o dia que terminava cheio de movimento e com pouca coisa concluída.

O diagnóstico não resolveu nada sozinho. Ele me deu um ponto de partida para parar de brigar com a minha cabeça e começar a montar o dia de um jeito que ela consiga acompanhar. Ainda erro bastante. Tem semana em que tudo funciona e semana em que eu volto para a bagunça em dois dias.

Escrevo aqui o que venho testando, porque imagino que tem gente em vendas, com ou sem diagnóstico, que reconhece a mesma confusão. Vale como relato de quem ainda está ajustando, e algumas coisas daqui talvez nem sirvam para você.

Vendas e TDAH na mesma rotina

Vendas tem coisas que a minha cabeça adora. Conversa, imprevisto, meta com prazo, a sensação de que cada dia pode virar. Quando um cliente responde e a negociação anda, eu fico ligado de um jeito que poucas atividades me deixam. A intensidade que eu procuro na corrida também aparece ali, e já escrevi sobre esse gosto pelo desconforto em outro texto.

O problema está na parte que ninguém mostra. Registrar a conversa no sistema, mandar o resumo da reunião, ligar de novo para quem pediu um tempo para pensar, revisar a proposta antes de enviar. É tarefa repetitiva, sem emoção nenhuma, e é ela que fecha negócio. Durante muito tempo eu fazia bem a primeira conversa e deixava a segunda escapar.

A lista curta que fica à vista

Já tentei aplicativo de tarefa, quadro com cores, planilha cheia de abas. Tudo funcionava por uma semana e depois virava mais uma coisa para esquecer de abrir. O que tem durado mais é bem simples. Uma lista curta, escrita à mão, que fica na mesa onde eu enxergo sem precisar procurar.

Curta mesmo. Três ou quatro coisas que precisam acontecer naquele dia de qualquer jeito. O resto vai para outro lugar, e eu aceito que talvez não saia. Quando a lista tem quinze itens, a minha cabeça olha para ela, se assusta e vai fazer outra coisa. Com três, eu consigo começar.

Na prática, o que entra nela costuma se repetir.

  • Retornos prometidos. Se eu disse que ligaria, isso vai para o topo antes de qualquer coisa nova.
  • Uma tarefa chata de cada vez. A proposta para revisar ou o cadastro atrasado entra sozinha, sem acompanhante.
  • A conversa mais importante do dia. Aquela que eu preciso preparar, e que tende a ficar para depois justamente por isso.
  • Um horário para fechar o dia. Dez minutos no fim do expediente para olhar o que ficou e passar para a lista de amanhã.

Blocos curtos e o celular longe

A minha atenção funciona em rajadas. Consigo me concentrar muito bem por um tempo e depois ela vai embora sem pedir licença. Em vez de fingir que vou passar a manhã inteira focado, venho tentando dividir o trabalho em blocos curtos, com uma coisa só em cada um. Um bloco para ligações, outro para proposta, outro para responder mensagem.

O celular é o maior inimigo desses blocos. Uma notificação no meio de uma proposta e eu perco o fio, abro uma conversa, depois outra, e quando volto já nem lembro onde parei. Quando consigo deixar o aparelho virado ou em outro canto da mesa, a diferença aparece no fim do dia. Nem sempre consigo, porque cliente também manda mensagem, e aí eu tento pelo menos responder no intervalo entre um bloco e outro.

Isso tem parentesco com o que faço no treino. Na corrida eu também divido o longo em partes menores para não pensar na distância inteira de uma vez. No trabalho, olhar só para o próximo bloco me ajuda a sair do lugar quando a lista parece grande demais.

Anotar na hora ou perder a informação

Se tem uma regra que eu levo a sério, é essa. Terminou a conversa, eu anoto. Ali mesmo, antes de levantar, antes de abrir outra janela. O que o cliente disse, o que eu prometi, quando fiquei de voltar. Se eu deixo para depois, a informação some. Parece exagero, mas já perdi detalhe importante de negociação porque confiei que ia lembrar mais tarde.

Antes de entrar numa conversa importante, eu também tento escrever duas ou três linhas sobre o que quero sair sabendo. Falei disso com mais calma em preparar a conversa antes de entrar nela. Para quem tem a cabeça que pula de assunto, esse papel na frente funciona como um corrimão. A conversa pode ir para onde for, e eu tenho um lugar para voltar.

Passei anos tentando resolver na força de vontade uma coisa que melhorou quando eu mudei o jeito de organizar a mesa.

Os dias em que nada disso funciona

Tem dia em que eu acordo cansado, o treino pesou, a casa precisou de mim antes do expediente e a cabeça simplesmente não engata. A lista fica ali me olhando e eu não consigo começar. Já tentei passar por cima disso na marra e quase sempre terminei o dia irritado e com pouca coisa feita.

Hoje eu tento baixar a régua nesses dias. Escolho uma única coisa da lista, geralmente o retorno mais urgente, e faço só ela primeiro. Às vezes isso destrava o resto. Às vezes continua travado, e eu aceito que aquele vai ser um dia mais fraco. Vendas tem ciclo de mês, e um dia ruim raramente decide a meta. O que pesa é quando o dia ruim vira semana sem que eu perceba.

Também aprendi a desconfiar de quando tudo parece urgente. Com TDAH, qualquer coisa nova ganha cara de prioridade. Antes de largar o que estou fazendo para atender a novidade, tento me perguntar se ela realmente não pode esperar uma hora.

Procurar ajuda e agradecer

Tudo o que escrevi aqui é o meu jeito, construído na tentativa e no erro. TDAH é coisa séria e cada pessoa vive de uma forma. Se você se reconhece nessa bagunça e nunca conversou com ninguém sobre isso, procure um médico psiquiatra ou um psicólogo. O diagnóstico e o acompanhamento mudaram a forma como eu me enxergo. Se o peso estiver grande demais e você precisar conversar com alguém agora, o CVV atende pelo telefone 188, de graça, a qualquer hora.

Fico pensando em quanta coisa eu deixei passar antes de entender como a minha cabeça funciona, e em quanta gente teve paciência comigo nesse caminho. Agradeço a Deus por ter colocado essas pessoas perto de mim e por me dar, a cada manhã, mais uma chance de fazer um pouco melhor do que ontem.

Ainda estou montando essa rotina, e sigo errando em várias partes dela. Se você trabalha com vendas e também convive com uma cabeça acelerada, me conta como organiza o seu dia. Pode ser pelo Instagram ou pela página de contato. Se quiser saber mais de onde eu venho, a minha história está em sobre mim.

quem escreve

Patoloko

Pai, marido, trabalho com vendas e treino para ultramaratonas. Escrevo sobre disciplina enquanto ainda estou tentando. Ler o manifesto.

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