Existe uma parte do meu trabalho que ninguém vê e que decide boa parte do resultado. É o tempo que eu passo preparando uma conversa antes de entrar nela.
Quando eu faço essa parte, a reunião flui e eu saio dela sabendo o próximo passo. Quando eu pulo, a conversa anda sozinha, eu respondo no reflexo e saio com a sensação de que falei bastante sem combinar nada.
Já aconteceu das duas formas, e várias vezes. A diferença entre elas quase nunca está no meu dia, no humor do cliente ou na sorte. Está na meia hora anterior.
Preparar não é decorar um discurso. Discurso decorado quebra no primeiro desvio, e todo cliente desvia.
Preparar, para mim, é chegar com três coisas resolvidas. Saber o que eu quero que aconteça até o fim daquela conversa. Saber o que a pessoa do outro lado tem a ganhar se isso acontecer. E ter imaginado antes, com honestidade, as duas ou três objeções mais prováveis.
Essas três coisas cabem numa folha. Não é trabalho de uma tarde, é trabalho de vinte minutos bem gastos.
O último item é o que mais me salva. Negociar limite no meio da conversa, com a pessoa esperando resposta, é a forma mais rápida de entregar o que eu não deveria.
Falho quando a semana aperta. Dia cheio, reunião encaixada em cima da outra, e a preparação vira a primeira coisa a ser cortada, porque ela não tem horário marcado na agenda de ninguém.
Também falho por excesso de confiança. Cliente conhecido, assunto repetido, e eu entro achando que sei de cor. Quase sempre a conversa muda de rumo em algum ponto que eu teria previsto se tivesse parado cinco minutos.
Tenho TDAH diagnosticado desde 2017, e preparação é exatamente o tipo de tarefa que a minha cabeça adia. Ela é chata, não tem urgência e o prejuízo aparece depois. Por isso virou item fixo e escrito, e não algo que eu decido fazer no impulso.
Escrevi há pouco sobre a Ultra BM 75K, onde eu planejei 8h45 e terminei em 10h51. A parte que me custou caro foi ter resolvido na véspera o que deveria ter sido calculado trecho a trecho.
Em vendas é igual. Um roteiro genérico para qualquer cliente é a mesma coisa que uma lista única de suprimentos para uma prova inteira. Parece prudente e é só peso.
O que funciona nos dois casos é decidir antes, com calma, aquilo que vai ser exigido depois, no cansaço. Na estrada o cansaço é físico. Na reunião é o da sexta-feira às cinco da tarde, com meta apertando.
Quase toda decisão ruim que eu tomei no trabalho foi tomada no meio da conversa, quando dava para ter sido tomada antes.
Preparação boa não engessa, libera. Quando eu sei meu objetivo, meu limite e minhas objeções, eu posso ouvir de verdade, porque não estou calculando enquanto a pessoa fala.
E aí acontece a parte interessante. Muita conversa preparada termina em um lugar diferente do planejado, e termina melhor, porque eu tinha espaço mental para perceber o que o cliente estava realmente dizendo.
Improvisar em cima de uma base preparada continua sendo trabalho. Improvisar sem base nenhuma é aposta, e eu já perdi o suficiente apostando.
Durante muito tempo eu tratei a conversa como encerrada no momento em que ela acabava. Saía da reunião, entrava na próxima e confiava na memória. Dois dias depois, na hora de retomar, metade dos detalhes tinha sumido.
Hoje eu uso cinco minutos logo em seguida para registrar três linhas. O que ficou combinado, quem ficou responsável por cada coisa e qual é a data. Sem adjetivo, sem impressão, só o que dá para cobrar depois.
Esse registro resolve dois problemas. Ele me livra de depender da memória num mês cheio, e ele me obriga a perceber na hora quando a conversa terminou sem combinar nada. Quando eu não consigo escrever as três linhas, é porque a reunião foi uma conversa agradável e não uma reunião de trabalho. Melhor descobrir isso no mesmo dia do que na semana seguinte.
Bloqueio vinte minutos antes das reuniões que importam, no próprio calendário, com nome e horário. Enquanto era intenção, não acontecia.
Para conversa pequena, uso cinco minutos e só os três primeiros itens da lista. Melhor cinco minutos do que nada, e nada era a minha média antes.
E aceito que vai falhar em alguns dias. A semana real tem imprevisto, filho doente, cliente que antecipa. Falhar num dia é diferente de não ter método.
A conversa é a parte visível do meu trabalho. O que decide o resultado dela acontece antes, em vinte minutos que não aparecem em relatório nenhum e que ninguém vai elogiar.
Agradeço a Deus pelo trabalho que eu tenho e pela chance de melhorar nele a cada mês, inclusive nos meses em que a conta não fecha.
Se quiser entender de onde vem essa cabeça de preparar tudo antes, está na página sobre mim. E se você também trabalha com vendas, me conta no Instagram como você prepara as suas conversas. Essa é uma parte do ofício sobre a qual quase ninguém fala.
quem escreve
Pai, marido, trabalho com vendas e treino para ultramaratonas. Escrevo sobre disciplina enquanto ainda estou tentando. Ler o manifesto.
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