Durante muito tempo eu falei de corrida como se ela fosse um esporte barato. Um tênis, uma roupa qualquer e a rua. Para quem corre cinco quilômetros no bairro, isso até chega perto de ser verdade.
Ultramaratona pede outra conta. Tem inscrição, tem viagem para chegar na largada, tem hospedagem, tem equipamento obrigatório que a organização exige, tem tênis que gasta mais rápido do que eu gostaria e tem a fisioterapia quando o corpo reclama. Somando tudo no fim do ano, o número assusta um pouco.
Eu trabalho com vendas, com uma parte da renda que muda de um mês para o outro, e tenho uma família que depende desse dinheiro. Então a pergunta sobre quanto a corrida custa aparece em casa com frequência, e ela merece uma resposta melhor do que um “depois a gente vê”.
Por anos eu nunca somei. Cada gasto parecia pequeno no dia em que acontecia. Uma inscrição parcelada, um par de meias técnicas, um gel aqui, uma bandagem ali. Nenhum deles, sozinho, mudava o mês.
O problema apareceu quando sentei para olhar o extrato com calma. Os gastos pequenos tinham virado uma categoria inteira do orçamento, e uma categoria que eu não tinha escolhido conscientemente. Ela cresceu sozinha, no ritmo da empolgação.
Isso me incomodou bastante. No trabalho eu exijo planejamento de mim, preparo conversa, calculo meta, e deixava o esporte correr solto no cartão. Tenho TDAH diagnosticado desde 2017, e compra por impulso combina muito bem com uma cabeça que vive atrás da próxima novidade. Equipamento novo dá uma sensação de progresso que o treino às vezes demora a dar.
Quando separei os gastos, eles caíram em poucos grupos. Coloco a lista aqui porque acho que ajuda quem está começando a olhar para o próprio extrato.
Com a lista na frente, ficou mais fácil decidir. Os cinco primeiros itens fazem parte do esporte que eu escolhi. O último eu posso apertar sem perder nada de importante.
Corrida em casa nunca foi assunto só meu. Já escrevi sobre quem segura a casa enquanto eu treino, e o dinheiro entra na mesma conversa. Cada real que vai para uma inscrição deixou de ir para outra coisa da família.
O que eu estou tentando colocar de pé é simples. A corrida ganha um valor por mês, decidido junto, e ele sai do orçamento como qualquer outra despesa fixa. Se sobrar, fica guardado para a próxima prova. Se faltar, a prova espera.
Quando a parte variável da renda vem boa, a tentação é usar a sobra para comprar alguma coisa da corrida. Quando vem fraca, a corrida deveria ser a primeira coisa a encolher. Falei disso no texto sobre organizar a casa com um salário que muda todo mês, e a lógica vale aqui também. O orçamento é feito pelo mês fraco, e o mês bom vai para a reserva antes de ir para equipamento.
Tenho dúvida sobre até onde vai o razoável. Existe um ponto em que o gasto com o esporte deixa de ser cuidado com a saúde e vira um hobby caro que a família financia sem ter escolhido. Eu não sei exatamente onde fica essa linha, e desconfio que ela muda conforme a fase da vida.
Também tropeço na comparação. Em toda prova tem alguém com equipamento melhor, viajando para mais longe, correndo mais vezes no ano. Olhar para isso me empurra a gastar para acompanhar um ritmo que não é o da minha casa, e o assunto volta toda vez que eu abro o site de uma loja de corrida.
Quero que a corrida caiba na vida da minha família sem que ninguém em casa precise pagar por uma escolha que foi minha.
Existe um dinheiro que passa perto da corrida e que eu trato com outro cuidado. O projeto Patoloko, Além da Chegada transforma cada quilômetro de prova em uma cesta básica para uma família em situação de risco. Ele começou em 2021 mantendo 24 famílias.
A campanha ativa é a da BR135, 240 km e cerca de 8.000 m de desnível positivo pelo Caminho da Fé. A meta é de 240 cestas, a R$ 75 cada, R$ 18.000 no total. Esse valor tem destino certo e não pode encostar em inscrição, tênis ou hospedagem. Misturar as duas contas seria o jeito mais rápido de perder a confiança de quem ajuda.
A campanha também mudou o jeito como eu olho para os meus próprios gastos. Quando um acessório custa o mesmo que uma cesta, a compra por impulso fica bem menos atraente.
Ainda estou ajustando, e alguns meses saem do combinado. O que tem ajudado é pouca coisa.
Antes de qualquer compra de corrida que não seja trivial, espero alguns dias. Se a vontade passa, era impulso. Se continua, converso em casa. Passei também a anotar tudo que gasto com o esporte numa categoria própria, para que o total do ano não vire surpresa. E escolho as provas do ano com antecedência, olhando o calendário e o orçamento juntos, em vez de me inscrever no calor de uma postagem.
Nada disso é sofisticado. Funciona melhor nos meses em que estou organizado e pior nos meses em que a cabeça está em mil lugares. Se a sua situação financeira está apertada ou confusa, vale conversar com um planejador financeiro antes de assumir gastos grandes com esporte. Uma pessoa de fora enxerga coisas que a gente não vê no próprio extrato.
Mesmo com tudo isso, a corrida segue no orçamento. Ela me deixa mais paciente, me dá um lugar para colocar a intensidade que, sem ela, iria parar em decisões piores, e foi por causa dela que o projeto das cestas nasceu.
Agradeço a Deus pela saúde para correr e por uma família que topa falar de dinheiro comigo, mesmo quando a conversa é desconfortável.
Se você também tenta encaixar um esporte caro numa casa com orçamento apertado, me conta no Instagram como você faz, ou escreve pela página de contato. Estou aprendendo com quem está no mesmo lugar.
quem escreve
Pai, marido, trabalho com vendas e treino para ultramaratonas. Escrevo sobre disciplina enquanto ainda estou tentando. Ler o manifesto.
Quer comentar este texto?

Em vendas, boa parte do resultado é decidida antes da reunião começar. Como eu preparo uma conversa e o que acontece quando eu pulo…

O plano era fechar a Ultra BM 75K em 8h45 e eu terminei em 10h51. Mochila pesada demais, cinco horas de chuva e o…

Quando a semana aperta, o sono é a primeira coisa que eu corto. O que tenho notado quando durmo pouco e os ajustes que…
