Adaptação em meio às adversidades na Ultra BM 75K

Corri a Ultra BM 75K solo e sem apoio no fim de semana. O plano era fechar em 8h45 e eu terminei em 10h51. Este texto conta o que aconteceu no meio do caminho.

Por Patoloko, em 20 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

Patoloko na chegada da Ultra BM 75K de 2026, com os bracos erguidos e os dedos apontando para o ceu, numero 537 no peito e ceu carregado ao fundo
Chegada da Ultra BM 75K de 2026.

Fechei a Ultra BM 75K no fim de semana em 10h51. O plano era 8h45.

Esse número de 8h45 não saiu do nada. Em 2023 eu fechei essa mesma prova em 9h04, e a meta deste ano era chegar antes disso. Era uma meta agressiva, porém possível com o treino que eu vinha fazendo.

Duas horas de diferença não aparecem de uma vez. Elas vão se formando aos poucos, em escolhas feitas antes mesmo da largada e em coisas que não dependem de mim. O que eu quero registrar aqui é como isso aconteceu e o que eu fiz quando ficou claro que o plano tinha ido embora.

Não gosto de dar desculpa. Isto aqui é relato.

Um aviso antes de continuar. O que eu escrevo é experiência pessoal, não prescrição. Antes de começar ou mudar um treino, converse com um médico e com um profissional de educação física.

Larguei com peso demais nas costas

O primeiro erro foi meu, e ele estava decidido antes de eu cruzar a linha de largada. Larguei com a mochila extremamente pesada, com excesso de suprimentos.

Correr solo e sem apoio empurra para isso. Quando você sabe que ninguém vai estar no meio do percurso com a sua garrafa, a sua comida ou a sua troca de meia, a tendência é levar tudo que possa vir a ser útil. Cada item parece pequeno sozinho. Somados, eles ficam nas suas costas por 75 quilômetros.

A conta chegou cedo, na forma de fadiga acelerada. E cansaço antecipado não fica isolado. Ele muda a passada, muda o apetite, muda a cabeça e encurta o que você consegue fazer nas horas seguintes.

Cinco horas de chuva

Choveu por volta de cinco horas durante a prova. Essa parte eu não escolhi.

Chuva longa cobra bem mais que desconforto. Ela encharca o que você carrega e aumenta o peso que já estava alto. Muda o chão debaixo do pé e obriga a correr com mais cuidado em trechos que seriam rápidos. Mexe com a alimentação, porque parar para comer na chuva é menos convidativo do que deveria ser.

Juntei as duas coisas, o peso que eu escolhi e a água que eu não escolhi, e o ritmo de 8h45 deixou de existir em algum ponto da primeira metade.

Antifrágil

O Nassim Taleb escreveu um livro chamado Antifrágil, e a ideia central dele me ajuda a pensar esses dias. Taleb separa três comportamentos diante da desordem. O frágil quebra. O robusto aguenta e continua igual. O antifrágil usa a desordem para ficar melhor.

Em dia de prova isso deixa de ser teoria. A chuva vai cair, o equipamento vai pesar, o estômago vai reclamar. Nenhum plano sobrevive inteiro a 75 quilômetros. A pergunta que importa é quanto tempo você leva para perceber que o plano morreu e começar a trabalhar com o que sobrou.

Demorei mais do que gostaria para aceitar. Mas aceitei ainda dentro da prova, e foi isso que salvou o dia.

O que eu fiz quando o plano caiu

  • Troquei a meta. Parei de calcular o fechamento em 8h45 e passei a cuidar do quilômetro seguinte. Ritmo alvo em dia ruim vira cobrança inútil.
  • Reorganizei a mochila. Mudei o que estava mais acessível e me obriguei a consumir o que estava pesando, em vez de carregar até o fim.
  • Voltei a comer e beber no relógio. Com chuva e cansaço a vontade some, e quando eu dependo da vontade eu erro.
  • Aceitei caminhar nas subidas. Caminhar rápido e continuar inteiro rendeu mais do que insistir em correr e quebrar de vez.
  • Parei de olhar para trás. As duas horas perdidas não voltam. Revisar erro no meio da prova só atrapalha. Essa conversa fica para depois, que é exatamente este texto.

Terminar uma prova que saiu do controle é um teste diferente de terminar uma prova que correu bem.

A mesma conta fora da prova

Trabalho com vendas, e a cena não é muito diferente. Começo o mês com uma meta e um caminho desenhado até ela. Aí o mês acontece. Um cliente grande adia, uma entrega atrasa, alguém sai da equipe. Na metade do caminho a planilha da virada do mês já não descreve a realidade.

Quem insiste em executar o plano velho em cima de uma realidade nova perde tempo duas vezes. Perde no esforço que não cabe mais e perde no tempo que leva até admitir isso. Eu já fiz as duas coisas, na prova e no trabalho.

O que tenho treinado é encurtar esse intervalo. Perceber antes que o cenário mudou, refazer a conta com os números de agora e seguir com o que existe. Em prova esse intervalo tem nome e sobrenome, porque cada minuto parado pensando é minuto fora do relógio.

A parte difícil é que isso parece desistência quando você está dentro. Baixar o ritmo, caminhar, abrir mão do tempo que você escreveu na véspera. Só que a alternativa costuma ser não terminar.

O que eu levo para a BR135

A BR135 são 240 quilômetros com cerca de 8.000 metros de desnível positivo pelo Caminho da Fé. Lá o cenário muda bastante, porque vou ter apoio e não vou carregar mochila. O erro deste fim de semana não se repete do mesmo jeito. O princípio por trás dele, sim.

Com equipe, o excesso para de pesar nas costas e passa a pesar em tempo. Tempo parado no ponto de apoio, decisão tomada na hora com a cabeça cansada, item que ninguém encontra dentro da caixa. Continua sendo falta de cálculo, só que em outro lugar da operação.

Três coisas saem daqui direto para a preparação. A primeira é montar o que eu levo entre um ponto de apoio e o outro em função daquele trecho, pela distância, pelo desnível e pelo tempo estimado, e não por uma lista única para a prova inteira. A segunda é deixar combinado antes o que entra e o que sai em cada parada, e quanto tempo eu fico nela, para que nada dependa do meu julgamento no quilômetro 180. A terceira é treinar na chuva de propósito, porque essa parte não muda com apoio nenhum.

É isso que eu chamo de plano sob medida. Calculado trecho a trecho, com cada decisão tomada antes, enquanto eu ainda estou descansado e pensando direito.

Escrevi há alguns dias que voltaria à BM 75K como rodagem para a BR135. Foi exatamente isso que ela foi, só que pelo caminho mais caro.

O número que ficou

10h51. Mais lento do que eu queria e mais honesto do que qualquer planilha que eu tivesse feito antes.

Continuo achando que o plano de 8h45 era razoável. Ele só não sobreviveu ao dia. E dia nenhum vai ser igual ao da planilha, o que me leva de volta ao Taleb. Não adianta montar um plano que só funciona se tudo der certo.

Antes de fechar o texto, agradeço a Deus por mais uma chegada inteira. Em prova longa isso nunca é garantido, e depois de dez horas na estrada eu não trato esse detalhe como pouca coisa.

A campanha do Patoloko, Além da Chegada segue na BR135, com meta de 240 cestas básicas a R$ 75 cada. Cada quilômetro que eu percorro em prova continua virando cesta, e isso vale igual em dia bom e em dia ruim.

Conto o resto no Instagram. Se você também estava na estrada neste fim de semana, me conta como foi o seu dia.

quem escreve

Patoloko

Pai, marido, trabalho com vendas e treino para ultramaratonas. Escrevo sobre disciplina enquanto ainda estou tentando. Ler o manifesto.

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