De volta à BM 75K, agora como rodagem para a BR135

Corri a BM 75K em 2023, solo e sem apoio. Volto à mesma prova agora com outro objetivo: usar os 75 km como rodagem dentro da preparação para os 240 km da BR135.

Por Patoloko, em 14 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

Patoloko correndo na areia molhada da praia durante a BM 75K de 2023, com morros ao fundo e ceu nublado

Tem uma diferença grande entre correr uma prova pela primeira vez e voltar a ela sabendo exatamente o que vem pela frente. Na primeira vez, quase tudo é descoberta. Na segunda, a descoberta é outra: é sobre você, e não sobre o percurso.

Corri a BM 75K em 2023. Solo, sem apoio. Agora volto para a mesma prova, só que com outro objetivo. Não vou buscar o melhor tempo possível. Vou usar a prova como rodagem dentro da preparação para a BR135, que tem 240 km e cerca de 8.000 metros de desnível positivo pelo Caminho da Fé.

Escrever isso em voz alta me ajuda a não me enganar no meio do caminho. Porque, no dia, com gente passando do lado e o relógio apitando, a vontade de competir sempre aparece.

Um aviso antes de continuar: o que eu escrevo aqui é experiência pessoal, não prescrição. Antes de começar ou mudar um treino, converse com um médico e com um profissional de educação física.

O que foi a BM 75K solo e sem apoio

Solo e sem apoio significa que ninguém está te esperando no meio do percurso com a sua garrafa, o seu gel ou a sua troca de meia. O que você vai usar, você carrega. O que você esqueceu, você resolve com o que tem.

Isso muda a prova inteira. Cada decisão pequena vira responsabilidade sua: quando beber, quando comer, quando parar para ajustar a mochila, quando aceitar que o ritmo precisa cair. Não existe ninguém do lado de fora para dizer que está tudo bem.

Eu aprendi ali que o problema quase nunca é a distância. É a sequência de escolhas erradas que se acumulam. Beber tarde demais. Comer pouco. Insistir num ritmo porque o orgulho falou mais alto. A prova cobra tudo isso depois, e cobra com juros.

Por que voltar a uma prova que eu já corri

Tem gente que acha repetir prova um desperdício, como se o valor estivesse só na novidade. Eu discordo. Voltar ao mesmo lugar é um dos poucos jeitos honestos de medir se você evoluiu de verdade.

O percurso é o mesmo. A areia é a mesma. O que muda é você: o preparo, a cabeça, a estratégia, a idade, a vida em volta. Quando o cenário não muda, sobra pouco lugar para se enganar.

E tem a parte prática. Uma prova já conhecida é um laboratório melhor do que uma estreia. Eu sei onde o terreno fica mais pesado, sei onde dá vontade de parar, sei a hora em que a cabeça começa a negociar. Dá para testar coisas novas sem o susto de estar descobrindo tudo ao mesmo tempo.

Usar a prova como rodagem é mais difícil do que parece

No papel, rodagem é simples: correr um volume grande em ritmo controlado, sem buscar resultado. Na prática, é um exercício de ego.

Você está com número no peito, cercado de gente competindo, numa prova com cronômetro. Tudo ali empurra para acelerar. Segurar o ritmo quando o corpo ainda aguenta mais é, para mim, mais desconfortável do que apertar.

Mas a conta é simples. Se eu corro a BM 75K no meu limite, eu passo os dias seguintes me recuperando, e a preparação para a BR135 perde semanas. Se eu corro controlado, termino inteiro e volto a treinar rápido. O objetivo real está lá na frente, não na linha de chegada desse fim de semana.

Rodagem é a prova em que você ganha terminando com a sensação de que poderia ter corrido mais.

Patoloko correndo na praia durante a BM 75K de 2023 e apontando para a câmera
BM 75K, edição de 2023. Prova solo e sem apoio.

O que a areia ensina, e o que ela não ensina

Preciso ser honesto sobre as diferenças. A BM 75K é longa, mas o terreno é outro. Correr quilômetros de areia molhada, com vento e sem sombra, treina uma coisa. Subir e descer montanha por 240 km treina outra bem diferente.

A areia cobra força, cadência e paciência. Ela não devolve energia, não deixa você se esconder atrás de uma descida boa e castiga qualquer passo mal apoiado. É excelente para resistência e para a cabeça.

O que ela não me dá é desnível. Os 8.000 metros positivos da BR135 só se aprendem subindo. Então a BM 75K entra na preparação como volume, teste e cabeça, enquanto a parte de montanha precisa continuar acontecendo nos treinos longos. Usar uma coisa para substituir a outra seria mentira comigo mesmo.

O que eu quero testar nessa rodagem

  • Alimentação em movimento. O que o estômago aceita depois da sexta hora, e não o que funciona bem nas duas primeiras.
  • Ritmo controlado sob pressão. Segurar o passo mesmo quando o pessoal ao redor acelera.
  • Equipamento completo. Mochila, garrafas, meia, tênis e boné. Nada de estreia de material na prova grande.
  • Autonomia. Resolver sozinho os problemas pequenos antes que eles virem problemas grandes.
  • Recuperação. Como o corpo responde nos três dias seguintes a um esforço longo em ritmo baixo.

Nenhum desses itens aparece em foto de chegada. Mas é essa lista que decide como vai ser o segundo dia da BR135.

Cada quilômetro continua virando cesta

Tem outra coisa que não muda quando eu troco o objetivo da prova. No Patoloko, Além da Chegada, cada quilômetro percorrido vira uma cesta básica para uma família em situação de risco. O projeto começou em 2021, mantendo 24 famílias, e foi crescendo desde então.

A campanha ativa agora é a da BR135: 240 km, 240 cestas, R$ 75 cada uma, R$ 18.000 no total. Quando eu digo que vou correr controlado, isso não diminui em nada o que está em jogo. O quilômetro vale a mesma coisa correndo rápido ou devagar.

Talvez seja por isso que terminar inteiro importe tanto. Chegar quebrado numa rodagem e comprometer a prova principal não seria só um problema meu.

O que eu levo dessa volta

Voltar a uma prova que eu já corri me obriga a encarar o que mudou e o que não mudou. Em 2023 eu queria saber se dava conta. Agora a pergunta é outra: dá para fazer a coisa certa mesmo quando o ambiente inteiro pede o contrário?

É a mesma disciplina que eu tento aplicar no trabalho e em casa. Fazer o combinado no dia em que ele não é empolgante. Se você quiser ler mais sobre como eu encaixo treino numa semana cheia, escrevi sobre isso em treinar para ultramaratona com pouco tempo. E se quiser entender de onde vem tudo isso, está na página sobre mim.

Acompanho e conto o resto no Instagram. Se você também vai estar na estrada, me avisa. Dá para dividir quilômetro com quem está no mesmo processo.

quem escreve

Patoloko

Pai, marido, trabalho com vendas e treino para ultramaratonas. Escrevo sobre disciplina enquanto ainda estou tentando. Ler o manifesto.

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