A BR135 tem 240 km e eu carrego a dúvida de não chegar ao fim. Como tenho treinado com esse medo do lado, sem fingir que ele sumiu.
Por Patoloko, em 24 de outubro de 2026 · 5 min de leitura
Tem uma pergunta que aparece quase todo dia, normalmente no meio de um treino longo ou à noite, quando a casa já dormiu. E se eu não terminar a BR135? São 240 quilômetros pelo Caminho da Fé, com cerca de 8.000 metros de desnível positivo. É uma distância que assusta qualquer um que leve a sério o que está fazendo.
Durante um tempo eu tratei esse medo como defeito. Achava que corredor preparado não pensa nisso, que a dúvida era sinal de pouca fé ou de pouco treino. Fui percebendo que ele aparece justamente quando eu levo a prova a sério. Quem não se importa com o resultado também não perde sono por causa dele.
Escrevo para organizar como tenho tentado conviver com essa pergunta sem deixar que ela mande nos meus dias. Ainda estou aprendendo, e algumas coisas daqui podem mudar até a largada.
Quando paro para olhar com calma, o medo de não terminar tem várias camadas. A primeira é física. Uma prova longa assim depende de coisas que eu não controlo, como o clima, o estômago, uma dor que aparece do nada, uma bolha que vira problema na madrugada. Dá para treinar, comer direito e planejar, e mesmo assim alguma coisa pode sair do roteiro.
A segunda camada é a do projeto. A campanha do Patoloko, Além da Chegada para a BR135 tem meta de 240 cestas básicas, uma para cada quilômetro, a R$ 75 cada, somando R$ 18.000. Quando penso em parar antes do fim, penso também nas pessoas que doaram acreditando que eu ia cruzar a chegada. Esse peso é diferente do peso de uma prova que eu faço só por mim.
A terceira é mais pessoal e mais difícil de admitir. Tenho medo de decepcionar meu filho, minha esposa e quem acompanha. Com TDAH diagnosticado desde 2017, conheço bem a empolgação do começo e o esforço que dá sustentar uma coisa até o fim. Uma parte de mim quer provar que consigo terminar o que comecei.
O pior momento é no meio de um treino longo, cansado, com muito chão pela frente. A cabeça pega o cansaço daquele dia e projeta para 240 quilômetros. Se isso aqui já dói, imagina lá. Essa conta é injusta, porque compara um treino isolado com uma prova que eu ainda vou levar meses construindo.
Comecei a responder essa voz com perguntas menores. Consigo chegar no próximo ponto de água? Consigo terminar este treino do jeito que foi planejado? Quase sempre a resposta é sim. A prova grande vai ser feita do mesmo jeito, um trecho depois do outro, e treinar a cabeça para pensar assim também faz parte da preparação.
Algumas coisas que têm ajudado:
Esse ponto me incomoda, e por isso preciso escrever sobre ele. Se eu entrar na prova achando que parar é impensável, posso tomar uma decisão ruim lá dentro. Ultramaratona tem muitas histórias de gente que insistiu quando o corpo pedia para parar e pagou caro depois. Eu tenho um filho e uma esposa me esperando em casa. Terminar a prova importa muito para mim, e voltar inteiro importa ainda mais.
Por isso quero chegar à largada tendo conversado com quem entende do assunto. Um médico do esporte e um educador físico conseguem me ajudar a reconhecer sinais de alerta que eu, cansado e teimoso, posso ignorar. Se você também está se preparando para algo longo, procure esse acompanhamento com antecedência.
Aceitar que parar pode acontecer não diminuiu minha vontade de terminar. Tem me deixado correr com menos tensão, porque já não finjo que tenho controle sobre tudo.
Às vezes esse medo sai do treino e vai para outros lugares. Aparece numa reunião de trabalho, numa noite em que demoro para dormir, num dia em que fico mais quieto em casa. Já escrevi sobre TDAH, intensidade e o gosto pelo desconforto, e sei que minha cabeça tende a girar em volta de uma ideia até cansar.
Quando percebo que estou nesse giro, tento voltar para coisas concretas. O treino de amanhã, a planilha da semana, a ligação que preciso fazer para um cliente. Ajuda também não me comparar com corredores que já fizeram provas desse tamanho, coisa que tratei no texto sobre parar de me comparar com quem está em outra fase da vida. Cada um chega na largada com a história que tem.
Se a ansiedade começar a atrapalhar o sono, o trabalho ou a convivência em casa, vale procurar um psicólogo. E se em algum momento o peso ficar grande demais, o CVV atende pelo telefone 188, de graça e a qualquer hora.
Quero chegar na largada da BR135 com medo e preparado ao mesmo tempo, porque acho que as duas coisas cabem na mesma pessoa.
Tenho levado a pergunta para a oração também. Peço força para treinar bem, juízo para tomar boas decisões durante a prova e paz para aceitar o que eu não controlo. Agradeço a Deus pela saúde para treinar, pela família que segura a casa enquanto eu corro e pela chance de transformar quilômetros em comida para quem precisa.
Não sei se vou terminar a BR135. Vou treinar como quem pretende terminar, cuidar do corpo, ouvir quem entende e correr cada trecho com o que eu tiver naquele dia. As 240 cestas da campanha continuam sendo o motivo de tudo, e você pode ver como ajudar na página do Além da Chegada.
Se você também carrega um medo parecido, numa prova ou em qualquer outro projeto grande, me conta pela página de contato. A preparação aparece no dia a dia do Instagram, com os treinos bons e os ruins.
quem escreve
Pai, marido, trabalho com vendas e treino para ultramaratonas. Escrevo sobre disciplina enquanto ainda estou tentando. Ler o manifesto.
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