Parar de me comparar com quem está em outra fase da vida

Comparar minha vida com a de quem está em outra fase me tirava mais energia do que dava. Os ajustes que tenho testado para usar a minha própria régua.

Por Patoloko, em 18 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

Patoloko correndo na praia durante a BM 75K de 2023 e apontando para a camera, com neblina sobre o mar

Tenho o hábito de pegar o celular de manhã cedo, antes do treino, e ver o que os outros já fizeram. Gente que correu mais longe, que fechou um negócio maior, que trocou de carro, que viajou com os filhos. Em dez minutos de tela eu consigo levantar do sofá me sentindo atrasado em quatro áreas diferentes da vida.

Durante muito tempo achei que isso era combustível. Ver alguém na frente me dava vontade de acelerar, e às vezes ainda dá. Só que tenho percebido que, na maior parte dos dias, a comparação me tira mais energia do que coloca e me empurra para decisões que não combinam com a fase em que eu estou.

Este texto é uma tentativa de organizar o que tenho feito com isso. Não resolvi. Estou mexendo nas peças, anotando o que parece funcionar e o que eu largo depois de uma semana.

Comparo a minha bagunça com a vitrine dos outros

O que eu vejo de outra pessoa é um recorte escolhido por ela. A foto da chegada, o print da meta batida, o jantar bonito no fim de semana. Do meu lado, eu tenho acesso a tudo, inclusive à noite mal dormida, ao cliente que parou de responder e ao treino que cortei pela metade porque a casa precisou de mim naquela manhã.

Essa conta nunca fecha a meu favor. Sei disso de cabeça e mesmo assim caio nela com uma frequência que me irrita. Com TDAH, diagnosticado desde 2017, isso ganha um tempero a mais. Minha atenção pula de um estímulo para outro, e cada perfil novo vira uma ideia nova do que eu deveria estar fazendo. Já comecei planilha de treino, curso e método de organização só porque vi alguém usando. A maioria ficou pela metade. Escrevi um pouco sobre esse lado em TDAH, intensidade e o gosto pelo desconforto.

O problema maior vem depois. Quando abandono uma coisa que comecei por comparação, ainda somo esse abandono na lista de motivos para me sentir para trás. Vira um ciclo que se alimenta sozinho.

Cada fase de vida tem a sua régua

Sou pai, marido, trabalho com vendas e a minha carreira ainda está em construção. Isso define quanto tempo eu tenho, quanta energia sobra no fim do dia e quanto risco eu posso correr com dinheiro e com agenda. Um atleta sem filhos que treina duas vezes por dia vive outra conta. Um colega de vendas que pode passar a semana inteira na estrada atrás de cliente também.

Quando me comparo com essas pessoas, estou usando uma régua feita para outra vida. Demorei para enxergar isso porque os números parecem iguais. Quilômetro é quilômetro, venda é venda. O que muda é tudo o que está em volta desses números, e isso quase nunca aparece na tela.

Vale para a ultramaratona também. Estou me preparando para a BR135, 240 km pelo Caminho da Fé com cerca de 8.000 metros de desnível positivo. Tem gente indo para provas assim com uma estrutura de treino que eu não tenho. Se eu ficar olhando para o volume semanal dessas pessoas, tenho duas saídas ruins. Posso me machucar tentando copiar ou posso desistir achando que não dou conta. Nenhuma das duas me serve, então tento montar a preparação com o tempo que cabe na minha semana, com orientação de quem entende do assunto. Se você treina para provas longas, procure um educador físico para ajustar o plano à sua rotina em vez de copiar a de alguém.

Algumas coisas que tenho testado

Nada aqui é método. São ajustes pequenos que estou experimentando e que, por enquanto, têm ajudado mais do que atrapalhado.

  • Celular longe na primeira hora do dia. O treino e o café vêm antes de qualquer feed. Quando inverto essa ordem, saio de casa já pensando nos números dos outros.
  • Comparar com o meu mês passado. Pego uma área por vez e olho para trás. Treinei com mais constância do que no mês anterior? Organizei melhor a agenda de vendas? Esse tipo de pergunta me dá uma resposta que eu consigo usar no dia seguinte.
  • Perguntar o custo antes de copiar. Quando alguém faz algo que admiro, tento imaginar do que essa pessoa abriu mão para chegar ali. Às vezes eu topo pagar o mesmo preço. Muitas vezes descubro que não topo, e tudo bem.
  • Silenciar quem me deixa pior. Sem drama e sem julgamento sobre a pessoa. Se toda vez que vejo um perfil eu fico ansioso, ele sai da minha tela por um tempo.
  • Dizer em voz alta. Contar para a minha esposa que estou me sentindo para trás costuma diminuir o tamanho da coisa. Falado, o problema fica do tamanho real.

Não faço todos ao mesmo tempo. Tem semana em que só consigo manter o primeiro, e tem semana em que esqueço de todos e passo a noite rolando a tela. Quando isso acontece, tento retomar no dia seguinte sem transformar o deslize em mais um item da lista de cobranças.

Quando olhar para os outros ajuda

Seria desonesto dizer que eu jogaria fora toda comparação. Ver alguém fazer uma coisa difícil me mostra que ela é possível. Foi assim que entrei em várias coisas que fazem parte da minha história, do paraquedismo ao jiu-jitsu e ao kart. Alguém fez primeiro, e eu pensei que também podia tentar.

A diferença, pelo menos para mim, está no que faço depois de olhar. Se saio com uma pergunta prática, do tipo “como essa pessoa encaixa o treino na semana?”, a comparação me ajudou. Se saio com uma sensação vaga de que estou falhando em tudo, ela só me pesou. Ainda erro o lado muitas vezes, e normalmente só percebo à noite, quando o dia já passou.

Tenho tentado olhar para o meu mês passado antes de olhar para a vida de qualquer outra pessoa.

Uma conta em que ninguém compete comigo

Uma coisa que tem me ajudado sem eu ter planejado é o projeto Patoloko, Além da Chegada. A cada quilômetro percorrido em prova de ultramaratona, uma cesta básica vai para uma família em situação de risco. O projeto começou em 2021 mantendo 24 famílias, e a campanha de agora é a BR135, com meta de 240 cestas.

Quando penso nessas famílias, a pergunta muda de lugar. Saio do tempo que os outros vão fazer na prova e vou para quantas cestas cada quilômetro meu representa. Essa conta só depende de mim chegar mais longe, e ela me lembra por que continuo correndo numa fase da vida em que seria bem mais fácil parar.

Quando o incômodo passa do ponto

Existe um momento em que a sensação de estar atrasado deixa de ser um incômodo de manhã e começa a ocupar o dia inteiro. Se ela está tirando o sono, travando o trabalho ou fazendo você se sentir sem valor por semanas seguidas, procure um psicólogo. Falar com um profissional ajuda a separar o que é cobrança justa do que é ruído. Escrevi mais sobre cuidar da cabeça sem poder parar a rotina em Saúde mental para quem não pode sumir por algumas semanas.

Se a coisa ficar pesada demais, o CVV atende de graça pelo telefone 188, a qualquer hora do dia.

Eu sigo no meio do processo, comparando menos do que antes e mais do que gostaria. Se você também se pega medindo a própria vida pela régua dos outros, me conta como lida com isso pela página de contato. A preparação para a BR135 está sendo registrada no Instagram do Patoloko.

quem escreve

Patoloko

Pai, marido, trabalho com vendas e treino para ultramaratonas. Escrevo sobre disciplina enquanto ainda estou tentando. Ler o manifesto.

Quer comentar este texto?

leia também