Trabalho com vendas, e o meu dia raramente termina quando eu saio do trabalho. Ele vem junto no carro. Vem a ligação que ficou sem retorno, a proposta que eu acho que podia ter apresentado melhor, o número do mês que ainda não fechou. Quando eu abro a porta de casa, boa parte da minha cabeça continua lá fora.
Por muito tempo eu achei que bastava estar em casa. Eu estava ali, jantava junto, ajudava a colocar meu filho para dormir. Só que a minha esposa percebia antes de mim quando eu estava ali pela metade. Eu respondia tudo com um “uhum” e olhava o celular a cada poucos minutos.
Este texto fala dos primeiros minutos depois que eu chego. Foi ali que eu comecei a mexer, porque percebi que o resto da noite costuma seguir o tom desses minutos. Ainda erro bastante, e escrevo do meio do caminho.
Tenho TDAH diagnosticado desde 2017, e trocar de assunto é uma das coisas que mais me custam. Eu consigo passar horas focado numa negociação e depois levar um tempo enorme para largar aquilo. A cabeça fica girando no mesmo ponto, revisando a conversa, imaginando a resposta que eu devia ter dado.
No trabalho isso às vezes ajuda, porque volto para o cliente com mais coisa pensada. Em casa o efeito é que eu fico distante sem perceber. Meu filho quer atenção, minha esposa quer contar como foi o dia dela, e eu estou mentalmente numa sala de reunião que já acabou faz tempo. Ninguém em casa tem culpa do meu funil de vendas, e mesmo assim é a casa que recebe o que sobra de mim.
A primeira tentativa foi a mais óbvia. Prometi para mim mesmo que ia desligar quando chegasse. Durou poucos dias. Promessa genérica, para a minha cabeça, não segura nada. Na primeira mensagem de cliente que chegou à noite eu já estava respondendo de pé na cozinha.
Depois tentei resolver tudo antes de sair. Ficava mais tempo no trabalho para zerar as pendências e chegar leve. Só que em vendas a lista nunca zera. Sempre tem mais uma pessoa para ligar, mais um retorno para dar. Eu chegava mais tarde e com a mesma cabeça cheia, e ainda perdia o pedaço da noite em que todo mundo estava acordado.
O que mais tem me ajudado é simples e um pouco estranho de contar. Quando eu estaciono, fico um pouco no carro antes de entrar. Abro o bloco de notas do celular e escrevo o que ficou aberto do dia. A ligação que preciso retornar, o cliente que pediu proposta, a ideia que apareceu no trânsito.
Escrever tira a pendência da cabeça e coloca num lugar onde eu sei que vou achar no dia seguinte. Para quem tem TDAH, esse lugar faz diferença. Enquanto a tarefa só existe na minha memória, a cabeça fica vigiando para não esquecer. Quando está anotada, ela afrouxa um pouco. Contei como organizo o resto do expediente em como eu organizo um dia de vendas com a cabeça que eu tenho, e essa anotação no carro acabou virando o último passo dessa organização.
Depois de escrever, respiro algumas vezes e penso em quem está do outro lado da porta. Parece bobo, e mesmo assim é o momento em que eu troco de papel e deixo o vendedor no banco do carro.
A noite em casa costuma seguir o tom dos primeiros minutos depois que eu passo pela porta.
Não tenho um sistema bonito. Tenho algumas regras que eu tento cumprir quase todo dia, e que vou ajustando quando percebo que deixaram de funcionar.
Algumas noites eu cumpro todas. Em outras cumpro uma ou duas. O celular é a mais difícil, porque em vendas o cliente responde quando quer, e às vezes é justamente à noite que chega a resposta que eu esperava a semana inteira.
Tem dias em que eu ainda vou treinar depois de chegar. A preparação para a BR135, os 240 km pelo Caminho da Fé que eu vou correr pelo Além da Chegada, pede volume, e nem sempre o treino cabe de manhã. Nesses dias o tempo em casa fica ainda mais curto, e eu preciso escolher com cuidado o que fazer com ele.
Já escrevi sobre quem segura a casa enquanto eu treino, e continuo achando que a minha esposa carrega uma parte grande disso. O mínimo que eu posso fazer é deixar o tempo entre chegar e sair para treinar inteiro para eles. Pouco tempo com atenção vale mais para a casa do que muito tempo comigo olhando para a tela.
Também tento combinar com antecedência. Avisar no começo da semana em quais noites vou treinar ajuda todo mundo a se organizar e diminui aquela sensação de que eu estou sempre saindo por alguma porta.
Ainda tem noite em que eu chego e não consigo desligar de jeito nenhum. Fico no carro, escrevo tudo, entro decidido, e dez minutos depois estou pensando de novo na mesma negociação. Nesses dias eu tento não brigar comigo mesmo. Aviso que estou com a cabeça longe, faço o que dá e deixo o resto para o dia seguinte.
Também não sei se esse jeito vai funcionar quando meu filho crescer e a rotina da casa mudar. Provavelmente vou ter que ajustar tudo de novo. E uma parte disso foge do que organização resolve. Quando o cansaço e a cabeça acelerada começam a pesar em casa com frequência, vale procurar um psicólogo ou um médico para entender o que está acontecendo. Se a coisa apertar de verdade, o CVV atende pelo telefone 188, a qualquer hora.
Agradeço a Deus por ter uma casa para onde voltar todo dia e por uma família que tem paciência com as minhas noites mais distraídas. Tento lembrar disso justamente nos dias em que chego mais cansado.
Se você também chega em casa com a cabeça ainda no trabalho, me conta como lida com isso. Pode ser pelo Instagram ou pela página de contato. Os outros textos estão no blog.
quem escreve
Pai, marido, trabalho com vendas e treino para ultramaratonas. Escrevo sobre disciplina enquanto ainda estou tentando. Ler o manifesto.
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Cada parcela parece pequena sozinha. Como venho tentando enxergar a fatura dos próximos meses antes de parcelar mais uma coisa.

O cliente diz que vai pensar e eu adio a ligação de volta por dias. Como venho tentando fazer o retorno no prazo, mesmo…

Pensar nos 240 km da BR135 de uma vez me trava. Como eu venho dividindo a preparação, a semana e o treino em pedaços…
