Como explicar ao meu filho por que eu corro pelos outros

Meu filho vê o pai sair para correr. Como eu tento explicar para ele que cada quilômetro vira uma cesta básica para outra família.

Por Patoloko, em 23 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

Pessoas retirando cestas básicas no salão da Pastoral São Tiago durante uma entrega do projeto Além da Chegada

Meu filho me vê sair cedo de tênis e voltar cansado. Ele sabe que o pai corre. O que ainda não sei é quanto ele entende do motivo, principalmente da parte que acontece longe dele, quando uma cesta básica chega na casa de uma família que ele nunca vai conhecer.

O Patoloko, Além da Chegada funciona de um jeito simples de contar para um adulto. A cada quilômetro que eu percorro numa prova de ultramaratona, uma família em situação de risco recebe uma cesta básica. Para uma criança, essa frase tem pelo menos três palavras difíceis. Quilômetro ele até imagina. Cesta básica e situação de risco pedem outra conversa.

Venho pensando em como fazer essa conversa sem assustar, sem transformar em lição de moral e sem deixar que ele ache que o pai é herói de alguma coisa. Ainda não acertei o jeito. Escrevo para organizar o que tenho tentado.

Por que eu quero que ele saiba

Seria mais fácil deixar o projeto como coisa de adulto. Ele vê a corrida, eu cuido do resto. Só que o projeto ocupa espaço na nossa casa. Tem treino que tira o pai de casa no fim de semana, tem conversa no celular com quem ajuda, tem dia em que a cabeça fica longe porque a meta ainda não fechou.

Se ele só enxergar a parte da ausência, vai achar que a corrida é um capricho do pai. Eu quero que ele saiba para onde vai esse esforço. Também acho que criança percebe quando uma coisa é importante para os pais, mesmo sem ninguém explicar. Prefiro que ele tenha a explicação, contada por mim, do tamanho que ele consegue entender agora.

Fome é um assunto difícil de trazer para dentro de casa

A parte mais delicada é falar que existem famílias que não têm o que comer. Para uma criança que abre a geladeira e encontra comida, isso pode parecer distante ou pode dar medo. Não quero nenhum dos dois.

O que tenho tentado é partir do que ele conhece. Ele sabe o que tem no armário da cozinha. Sabe que a gente vai ao mercado. A partir daí dá para dizer que algumas famílias não conseguem comprar tudo isso todo mês, e que a cesta ajuda a ter arroz, feijão e o básico em casa por um tempo. Uso palavras do dia a dia dele e paro quando ele muda de assunto. Se ele quiser voltar, volta.

Também evito apresentar essas famílias como coitadas. São pais e mães como eu e a mãe dele, atravessando um período difícil. Quero que ele olhe para elas com respeito, do mesmo jeito que olharia para um vizinho que precisou de uma mão.

Algumas coisas que estou testando

São tentativas, e eu mudo conforme ele reage.

  • Mostrar o caminho do alimento. Quando aparecer a chance, explicar que o que as pessoas doam vira cesta, e a cesta vai para uma casa de verdade, com gente dentro.
  • Usar números que ele consegue imaginar. Dizer 240 cestas para uma criança não significa muito. Dizer que cada pedacinho da corrida do pai vira comida para uma família faz mais sentido para ele.
  • Deixar as perguntas virem dele. Responder o que ele perguntar, do tamanho da pergunta, sem despejar tudo de uma vez.
  • Falar da prova sem drama. Contar que é longe e cansativo, que o pai vai treinar bastante e que ele pode torcer.
  • Admitir quando eu não sei. Se ele perguntar algo que eu não sei responder, digo que não sei e que a gente pode descobrir junto.

O risco de virar exemplo de vitrine

Tem uma coisa que me incomoda nisso tudo. O projeto tem o meu nome, aparece nas redes, e é fácil uma criança entender que ajudar os outros é algo que se faz para ser visto. Eu mesmo preciso vigiar isso em mim, porque a parte pública dá uma satisfação que confunde.

Por isso tento contar menos sobre a repercussão e mais sobre as pessoas. Para ele, o que vale guardar é que uma família recebeu comida naquele mês. Quando ele crescer e entender melhor como funciona a divulgação, espero que já tenha guardado essa parte primeiro.

Também quero que ele saiba que muita gente ajuda. O projeto anda porque outras pessoas doam e se envolvem. Desde 2021, quando começamos mantendo 24 famílias, nada disso foi feito por uma pessoa só. Se ele crescer achando que o pai faz tudo sozinho, vai aprender uma coisa errada sobre como a ajuda acontece.

Quero que ele aprenda que dá para pegar uma coisa que a gente gosta de fazer e usar para chegar até quem precisa, e que isso pede o trabalho de muita gente.

A BR135 vai entrar na conversa da casa

A campanha atual é para a BR135, 240 quilômetros pelo Caminho da Fé, com cerca de 8.000 metros de desnível positivo. A meta é de 240 cestas, a R$ 75 cada, somando R$ 18.000. Enquanto a preparação durar, esse assunto vai estar na nossa casa de um jeito ou de outro.

Para ele, provavelmente o número que importa é outro. O pai vai passar muito tempo correndo e cada quilômetro vira comida para alguém. Penso em fazer com ele um jeito de acompanhar a meta em casa, uma folha presa na geladeira em que a gente vai pintando as cestas conforme as doações chegam. Ainda não fiz. Gosto da ideia de ele ver a meta andando com os próprios olhos.

Se você quiser entender melhor como funciona a campanha e como ajudar, está tudo na página do Além da Chegada.

O que eu ainda não sei

Não sei quanto dessa conversa ele vai guardar. Pode ser que daqui a alguns anos ele lembre só do pai saindo de madrugada. Pode ser que lembre da folha na geladeira, se eu fizer. Não tenho controle disso, e acho que nem devia ter.

Também não sei se estou explicando cedo demais ou tarde demais. Tento seguir o ritmo dele. Já escrevi sobre a vontade de ser um pai presente sem apagar quem eu era antes, e esse assunto mora no mesmo lugar. Quero que ele conheça o pai que corre, o pai que trabalha com vendas e o pai que se importa com quem passa necessidade, tudo na mesma pessoa.

Agradeço a Deus por ter comida na nossa mesa e por poder usar a corrida para levar um pouco disso a outras casas. Peço a Ele que me ajude a passar isso para o meu filho com simplicidade.

Se você também tenta explicar esse tipo de coisa para os seus filhos, me conta como faz pela página de contato. O dia a dia da preparação está no Instagram.

quem escreve

Patoloko

Pai, marido, trabalho com vendas e treino para ultramaratonas. Escrevo sobre disciplina enquanto ainda estou tentando. Ler o manifesto.

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