Ser um pai presente sem apagar quem eu era antes

Como estar presente na criação do filho sem abandonar completamente quem eu era antes de ser pai. Uma pergunta que ainda não respondi por completo.

Por Patoloko, em 19 de setembro de 2026 · 5 min de leitura

Mãos de pai amarrando o tênis de uma criança pequena

Quando me tornei pai, ouvi muitas versões da mesma frase: agora a sua vida não é mais sua. Entendo o que as pessoas querem dizer. As prioridades mudam, o tempo encolhe, as escolhas passam a afetar alguém que depende totalmente de você.

Mas existe uma leitura dessa frase com a qual eu não concordo: a de que ser pai exige apagar tudo o que eu era antes.

Duas coisas ao mesmo tempo

Eu quero ser um pai presente. Quero estar na criação do meu filho, nas coisas grandes e nas pequenas. Ao mesmo tempo, continuo sendo alguém que gosta de desafios físicos, que tem ambição profissional e que tem objetivos que não quero abandonar só porque a vida ficou mais complicada.

Durante um tempo, achei que essas duas coisas estavam em conflito permanente. Hoje acho que elas estão em negociação permanente, o que é bem diferente.

Como ser um pai presente sem abandonar completamente quem você era antes de ser pai. É uma das perguntas que motivam este site.

Presença não é só tempo

Uma coisa que venho aprendendo é que presença não se mede apenas em horas. Dá para passar a tarde inteira em casa olhando o celular e não estar presente. E dá para ter uma hora curta, mas inteira, que vale mais do que um dia todo de corpo presente e cabeça longe.

Isso não é desculpa para passar pouco tempo com a família. Tempo importa, e muito. Mas me ajuda a pensar na qualidade dos momentos, não só na quantidade.

O que tenho tentado fazer

  • Momentos protegidos. Algumas horas da semana são da família e ponto. Sem trabalho, sem treino, sem celular por perto.
  • Incluir quando dá. Nem todo objetivo meu precisa acontecer longe de casa. Às vezes dá para transformar parte dele em algo que a gente faz junto.
  • Combinar os objetivos em casa. Meus projetos pessoais são conversados com a minha esposa. Não peço permissão, mas também não imponho. É uma negociação de casal.
  • Mostrar o processo. Gosto da ideia de que meu filho veja alguém tentando coisas difíceis, errando e continuando. Talvez isso ensine mais do que qualquer conselho.

Quando eu erro a conta

Tem períodos em que eu trabalho demais, treino de menos e ainda assim não consigo dar a atenção que gostaria para a família. Não tem como enfeitar isso. É ruim, e eu sei que é ruim. O que muda é que hoje eu tento perceber mais rápido e ajustar antes que vire hábito.

Também tem dias em que a escolha certa é ficar em casa, mesmo com treino na planilha. Contei mais sobre isso em Quando ficar em casa é a escolha mais difícil.

O que eu não quero ensinar sem querer

Crianças aprendem muito mais com o que veem do que com o que a gente fala. Isso me faz pensar em algumas coisas que eu não quero ensinar sem querer. Não quero ensinar que trabalho é mais importante que tudo. Não quero ensinar que cuidar de si é egoísmo. E também não quero ensinar que ser pai significa desistir de ser alguém além de pai.

Ao mesmo tempo, quero que meu filho veja que dá para ter objetivos, se esforçar por eles e ainda assim estar em casa, brincar, ouvir, participar. É um equilíbrio difícil, e eu não acerto sempre. Mas é o exemplo que eu gostaria de deixar.

O papel do casamento nessa conta

Ser um pai presente não é um projeto individual. Depende muito de como o casal divide as responsabilidades e de quanto cada um consegue apoiar os objetivos do outro. Quando eu saio para treinar, alguém fica em casa. Quando a minha esposa precisa de tempo para ela, a mesma lógica vale ao contrário.

Uma coisa que tem ajudado é tratar os objetivos pessoais dos dois com o mesmo peso. Não é “o meu treino” contra “o tempo dela”. É uma agenda da família, com espaço para cada um ser também quem era antes de ser pai e mãe.

Pequenos rituais que fazem diferença

  • Momentos fixos na semana que são só com o meu filho, sem pressa e sem celular.
  • Contar para ele, do jeito que ele entende, o que eu estou treinando e por quê.
  • Deixar ele participar de pedaços do meu mundo: uma caminhada, a preparação da mochila para uma prova, a torcida.
  • Chegar em casa e fazer uma pausa antes de entrar, para deixar o trabalho do lado de fora.

Nada disso é grandioso. Mas, somadas ao longo do tempo, essas pequenas escolhas constroem presença.

Quando a culpa aparece

Todo pai que tem objetivos próprios conhece a culpa. Ela aparece quando saio para treinar num sábado de manhã, quando fico até mais tarde no trabalho, quando estou cansado demais para brincar do jeito que gostaria. Durante um tempo, eu deixava essa culpa decidir as coisas por mim.

Hoje tento separar culpa de responsabilidade. Responsabilidade é perceber quando eu realmente estou ausente demais e mudar. Culpa é sentir que qualquer tempo para mim é um roubo da família. A primeira me ajuda a ser um pai melhor. A segunda só me deixa pior em todas as áreas, inclusive em casa.

Ainda estou tentando

Não escrevo como alguém que descobriu o jeito certo de ser pai. Escrevo como alguém que está no meio do processo, tentando fazer escolhas melhores dentro de uma rotina que nem sempre permite a escolha ideal.

Se você também está vivendo essa fase, talvez alguns desses assuntos façam sentido. Não porque eu tenha descoberto como fazer, mas porque também estou tentando. E, se quiser ver como essa conta fecha (ou não) no dia a dia, o Instagram @patoloko mostra um pouco dos bastidores.

quem escreve

Patoloko

Pai, marido, trabalho com vendas e treino para ultramaratonas. Escrevo sobre disciplina enquanto ainda estou tentando. Ler o manifesto.

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