Quem treina para ultramaratona passa muito tempo desconfortável. Perna pesada, pé dolorido, costas reclamando depois de um treino longo. Com os anos eu fiquei bom em continuar mesmo assim, e essa habilidade me ajuda em prova. Fora dela, ela também me atrapalha bastante.
O motivo é simples de explicar e difícil de corrigir. De tanto conviver com desconforto, eu passei a colocar qualquer dor na mesma gaveta. Tudo vira “normal de quem corre”. Uma dor que aparece no começo do treino, some no meio e volta à noite, eu chamo de normal. Uma dor que muda meu jeito de pisar, também. E aí eu sigo treinando em cima dela até ela decidir por mim.
Este texto é sobre essa gaveta. Eu ainda não sei separar bem uma coisa da outra, e estou tentando aprender antes que uma lesão me obrigue a isso.
Tem um pouco de orgulho nisso. A ultramaratona tem uma cultura de aguentar, e eu gosto dessa cultura. Já passei por paraquedismo, jiu-jitsu e kart, e em todos eles havia algum prestígio em não reclamar. Eu levo isso comigo para o treino.
Tem também o medo de ouvir que preciso parar. Estou me preparando para a BR135, 240 km pelo Caminho da Fé, e cada semana de treino parece valiosa demais para perder. Quando a cabeça está nesse modo, admitir uma dor parece uma ameaça ao plano inteiro. Então eu adio.
E tem o TDAH, que eu tenho diagnosticado desde 2017. Quando estou focado numa meta, eu entro num túnel. O corpo manda recado e eu leio como ruído. Muitas vezes só noto quando a dor já está grande o bastante para atrapalhar o dia inteiro, no trabalho e em casa.
Continuo achando que correr longe incomoda e que isso faz parte do esporte. Músculo cansado depois de um treino longo, aquela rigidez na manhã seguinte, a sensação de perna dura numa subida. Isso eu conheço e aceito sem drama.
O que eu tenho tentado é olhar para algumas perguntas antes de jogar tudo na gaveta do normal. Uso esta lista como lembrete pessoal, e ela não substitui a avaliação de ninguém:
Quando a resposta para uma ou duas dessas perguntas me incomoda, eu deveria tratar a dor como recado. Escrevo “deveria” porque nem sempre faço.
Sou corredor amador. Não tenho formação para diagnosticar nada, nem em mim mesmo. Por isso a recomendação mais honesta que eu consigo fazer aqui é a mesma que eu preciso seguir. Se uma dor persiste, muda o seu movimento ou volta sempre no mesmo lugar, procure um médico do esporte ou um fisioterapeuta. Para ajustar a carga de treino, procure um educador físico. Eu não sou nenhum deles, e o meu jeito de lidar com dor serve como relato, nunca como orientação.
A minha demora tem a ver com tempo e com dinheiro. Uma consulta toma uma manhã que eu poderia usar trabalhando. Exame custa. Com um salário que muda todo mês, saúde costuma ser o item que eu empurro para o mês seguinte. Já contei como eu tento organizar a casa com uma renda variável, e a consulta quase nunca entra no topo da lista. Só que a conta de uma lesão grande, em dinheiro e em semanas parado, costuma ser bem maior que a de uma consulta feita cedo.
Eu não tenho um método. Tenho alguns hábitos novos que ainda estão em teste, e nenhum deles é sofisticado.
O primeiro é anotar. Depois de cada treino, escrevo numa nota do celular, em uma linha, onde doeu e quanto. Parece bobo, mas com TDAH a minha memória do corpo é péssima. Sem anotação, cada dor parece nova. Com anotação, eu vejo quando a mesma coisa aparece três treinos seguidos.
O segundo é combinar uma regra antes de sair de casa. Durante o treino, a minha cabeça sempre negocia mais um quilômetro. Antes, ainda calmo, eu consigo decidir que, se certa dor aparecer, eu volto andando. Cumprir essa regra é outra história, mas ter a regra já muda alguma coisa.
O terceiro é levar a recuperação a sério. Já escrevi sobre o dia de descanso que eu sempre quero pular e sobre o sono, que é a primeira coisa que eu corto quando a semana aperta. Os dois assuntos voltam aqui. Muita dor que eu chamava de normal era o corpo sem tempo de se recuperar.
Quando penso numa lesão, penso primeiro na BR135. Mas tem mais coisa envolvida. Cada quilômetro que eu corro numa prova vira uma cesta básica no projeto Patoloko, Além da Chegada. Na BR135 a meta é de 240 cestas. Se eu me machuco por teimosia no treino, quem perde também são as famílias que contam com essa campanha.
E tem a casa. Uma lesão mal cuidada sai da corrida e entra no resto da rotina. Ela aparece no chão da sala, na hora de brincar com meu filho, no carro, na cadeira do trabalho. Eu fico mais irritado quando estou com dor, e quem convive comigo percebe isso antes de mim.
Eu treino a cabeça para aguentar dor durante a prova. No resto do tempo, essa mesma teimosia só adia uma consulta que eu vou acabar marcando de qualquer jeito.
Ainda chamo dor de normal mais vezes do que deveria. Hoje, pelo menos, eu percebo quando estou fazendo isso. Às vezes paro, às vezes sigo, e quando sigo eu anoto que segui. É pouco, mas é mais do que eu fazia um ano atrás.
Agradeço a Deus por ter um corpo que ainda aguenta esses treinos e por ter tempo de aprender a cuidar dele antes que ele precise me cobrar. Isso eu tento não dar por garantido.
Se você também treina e tem uma dor que vive empurrando, marque a consulta. Eu vou fazer o mesmo com a minha lista. Se quiser acompanhar como isso vai indo na preparação para a BR135, estou no Instagram. E se quiser contar a sua história, a página de contato está aberta.
quem escreve
Pai, marido, trabalho com vendas e treino para ultramaratonas. Escrevo sobre disciplina enquanto ainda estou tentando. Ler o manifesto.
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