Fui diagnosticado com TDAH em 2017. Na época eu já trabalhava com vendas, e muita coisa que eu achava ser defeito de caráter ganhou outro nome. O retorno prometido e esquecido, a proposta começada e largada pela metade, o dia que terminava cheio de movimento e com pouca coisa concluída.
O diagnóstico não resolveu nada sozinho. Ele me deu um ponto de partida para parar de brigar com a minha cabeça e começar a montar o dia de um jeito que ela consiga acompanhar. Ainda erro bastante. Tem semana em que tudo funciona e semana em que eu volto para a bagunça em dois dias.
Escrevo aqui o que venho testando, porque imagino que tem gente em vendas, com ou sem diagnóstico, que reconhece a mesma confusão. Vale como relato de quem ainda está ajustando, e algumas coisas daqui talvez nem sirvam para você.
Vendas tem coisas que a minha cabeça adora. Conversa, imprevisto, meta com prazo, a sensação de que cada dia pode virar. Quando um cliente responde e a negociação anda, eu fico ligado de um jeito que poucas atividades me deixam. A intensidade que eu procuro na corrida também aparece ali, e já escrevi sobre esse gosto pelo desconforto em outro texto.
O problema está na parte que ninguém mostra. Registrar a conversa no sistema, mandar o resumo da reunião, ligar de novo para quem pediu um tempo para pensar, revisar a proposta antes de enviar. É tarefa repetitiva, sem emoção nenhuma, e é ela que fecha negócio. Durante muito tempo eu fazia bem a primeira conversa e deixava a segunda escapar.
Já tentei aplicativo de tarefa, quadro com cores, planilha cheia de abas. Tudo funcionava por uma semana e depois virava mais uma coisa para esquecer de abrir. O que tem durado mais é bem simples. Uma lista curta, escrita à mão, que fica na mesa onde eu enxergo sem precisar procurar.
Curta mesmo. Três ou quatro coisas que precisam acontecer naquele dia de qualquer jeito. O resto vai para outro lugar, e eu aceito que talvez não saia. Quando a lista tem quinze itens, a minha cabeça olha para ela, se assusta e vai fazer outra coisa. Com três, eu consigo começar.
Na prática, o que entra nela costuma se repetir.
A minha atenção funciona em rajadas. Consigo me concentrar muito bem por um tempo e depois ela vai embora sem pedir licença. Em vez de fingir que vou passar a manhã inteira focado, venho tentando dividir o trabalho em blocos curtos, com uma coisa só em cada um. Um bloco para ligações, outro para proposta, outro para responder mensagem.
O celular é o maior inimigo desses blocos. Uma notificação no meio de uma proposta e eu perco o fio, abro uma conversa, depois outra, e quando volto já nem lembro onde parei. Quando consigo deixar o aparelho virado ou em outro canto da mesa, a diferença aparece no fim do dia. Nem sempre consigo, porque cliente também manda mensagem, e aí eu tento pelo menos responder no intervalo entre um bloco e outro.
Isso tem parentesco com o que faço no treino. Na corrida eu também divido o longo em partes menores para não pensar na distância inteira de uma vez. No trabalho, olhar só para o próximo bloco me ajuda a sair do lugar quando a lista parece grande demais.
Se tem uma regra que eu levo a sério, é essa. Terminou a conversa, eu anoto. Ali mesmo, antes de levantar, antes de abrir outra janela. O que o cliente disse, o que eu prometi, quando fiquei de voltar. Se eu deixo para depois, a informação some. Parece exagero, mas já perdi detalhe importante de negociação porque confiei que ia lembrar mais tarde.
Antes de entrar numa conversa importante, eu também tento escrever duas ou três linhas sobre o que quero sair sabendo. Falei disso com mais calma em preparar a conversa antes de entrar nela. Para quem tem a cabeça que pula de assunto, esse papel na frente funciona como um corrimão. A conversa pode ir para onde for, e eu tenho um lugar para voltar.
Passei anos tentando resolver na força de vontade uma coisa que melhorou quando eu mudei o jeito de organizar a mesa.
Tem dia em que eu acordo cansado, o treino pesou, a casa precisou de mim antes do expediente e a cabeça simplesmente não engata. A lista fica ali me olhando e eu não consigo começar. Já tentei passar por cima disso na marra e quase sempre terminei o dia irritado e com pouca coisa feita.
Hoje eu tento baixar a régua nesses dias. Escolho uma única coisa da lista, geralmente o retorno mais urgente, e faço só ela primeiro. Às vezes isso destrava o resto. Às vezes continua travado, e eu aceito que aquele vai ser um dia mais fraco. Vendas tem ciclo de mês, e um dia ruim raramente decide a meta. O que pesa é quando o dia ruim vira semana sem que eu perceba.
Também aprendi a desconfiar de quando tudo parece urgente. Com TDAH, qualquer coisa nova ganha cara de prioridade. Antes de largar o que estou fazendo para atender a novidade, tento me perguntar se ela realmente não pode esperar uma hora.
Tudo o que escrevi aqui é o meu jeito, construído na tentativa e no erro. TDAH é coisa séria e cada pessoa vive de uma forma. Se você se reconhece nessa bagunça e nunca conversou com ninguém sobre isso, procure um médico psiquiatra ou um psicólogo. O diagnóstico e o acompanhamento mudaram a forma como eu me enxergo. Se o peso estiver grande demais e você precisar conversar com alguém agora, o CVV atende pelo telefone 188, de graça, a qualquer hora.
Fico pensando em quanta coisa eu deixei passar antes de entender como a minha cabeça funciona, e em quanta gente teve paciência comigo nesse caminho. Agradeço a Deus por ter colocado essas pessoas perto de mim e por me dar, a cada manhã, mais uma chance de fazer um pouco melhor do que ontem.
Ainda estou montando essa rotina, e sigo errando em várias partes dela. Se você trabalha com vendas e também convive com uma cabeça acelerada, me conta como organiza o seu dia. Pode ser pelo Instagram ou pela página de contato. Se quiser saber mais de onde eu venho, a minha história está em sobre mim.
quem escreve
Pai, marido, trabalho com vendas e treino para ultramaratonas. Escrevo sobre disciplina enquanto ainda estou tentando. Ler o manifesto.
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Cada parcela parece pequena sozinha. Como venho tentando enxergar a fatura dos próximos meses antes de parcelar mais uma coisa.

O cliente diz que vai pensar e eu adio a ligação de volta por dias. Como venho tentando fazer o retorno no prazo, mesmo…

Pensar nos 240 km da BR135 de uma vez me trava. Como eu venho dividindo a preparação, a semana e o treino em pedaços…
