Caminhar na subida sem achar que estou desistindo

Com a BR135 pela frente, estou aprendendo a caminhar nas subidas e a calar a voz que chama isso de fraqueza.

Por Patoloko, em 28 de outubro de 2026 · 5 min de leitura

Patoloko subindo uma trilha à noite com bastões e lanterna de cabeça, durante uma ultramaratona

Durante muito tempo, caminhar numa prova me parecia uma espécie de confissão. Se eu estava andando, era porque o corpo tinha cedido. Eu segurava a corrida em subidas que pediam outra coisa, com o coração na boca, só para não me ver caminhando.

Com a BR135 no horizonte, essa vaidade virou um problema prático. São 240 km pelo Caminho da Fé e cerca de 8.000 metros de desnível positivo. Nenhum plano sensato para uma prova assim inclui correr todas as subidas, e eu sabia disso na teoria muito antes de aceitar na prática.

Este texto é sobre como estou aprendendo a caminhar nas subidas, a treinar essa caminhada e a lidar com a cabeça que insiste em chamar isso de fraqueza.

De onde vem essa resistência

Acho que vem de um lugar meio infantil. Quando comecei a correr, a graça era justamente correr, e parar para andar parecia trapaça comigo mesmo. Some a isso o meu jeito com TDAH, que gosta de intensidade e de sentir que está fazendo força. Andar não dá essa sensação. Parece que estou perdendo tempo, mesmo quando estou guardando uma energia que vou precisar muitas horas depois.

Também tem o olhar dos outros, ou pelo menos o que eu imagino dele. Quando alguém me passa correndo numa subida enquanto eu ando, a primeira reação é acelerar junto. Já caí nisso mais vezes do que gostaria de admitir, e quase sempre paguei mais adiante, com as pernas pesadas num trecho em que eu precisava delas.

O que muda numa prova muito longa

Numa ultra, o que decide o dia costuma ser quanto sobra de perna e de cabeça lá na frente, quando o cansaço já se acumulou e a noite chegou. Gastar tudo numa subida no começo pode custar horas no fim. Eu entendia essa lógica quando lia sobre ela, mas continuava correndo a ladeira inteira no treino seguinte.

Caminhar com firmeza numa subida forte muitas vezes rende quase a mesma velocidade de um trote sofrido, com o coração bem mais baixo. Isso eu ouvi de gente mais experiente e venho sentindo nos treinos. Ainda estou aprendendo a perceber o ponto em que vale trocar a corrida pela caminhada, e tem dia que erro para os dois lados.

Quando escrevi sobre o medo de não terminar a BR135, uma parte desse medo vinha de imaginar que eu teria que correr os 240 km. Pensar a prova como uma mistura de corrida e caminhada deixa o desafio mais honesto, e um pouco menos assustador.

Caminhada também precisa de treino

Demorei a entender que andar bem na subida é uma habilidade. Eu achava que bastava diminuir o ritmo. Na prática, caminhar forte por muito tempo cansa outros músculos, pede outra postura e outro jeito de respirar. Se eu só treino correndo, a caminhada vira o momento em que o corpo descansa mal e a cabeça desanima.

Algumas coisas que estou tentando incluir na rotina:

  • Subidas caminhadas de propósito. Em alguns treinos escolho trechos inclinados e caminho forte neles, sem trote, prestando atenção na passada e na respiração.
  • Treino com bastões. Quero chegar na prova usando os bastões sem pensar, então levo para alguns treinos longos, mesmo quando parecem exagero.
  • Alternância combinada antes. Nos longos, decido de antemão onde vou andar, em vez de decidir na hora, quando o orgulho fala mais alto.
  • Comer e beber andando. A caminhada é um bom momento para se alimentar, e quero transformar isso em hábito antes da prova.
  • Força nas pernas. O fortalecimento ajuda a sustentar a subida e a proteger o joelho na descida que quase sempre vem logo depois.

Tudo isso passa por quem entende mais do que eu. Planilha para prova longa deve ser montada e ajustada com um educador físico, e uma dor que insiste merece consulta com médico. Eu tento não inventar por conta própria, porque meu impulso é sempre fazer mais do que devo.

A cabeça na hora da subida

A parte física eu consigo planejar. A cabeça dá mais trabalho. Quando começo a andar, aparece a voz dizendo que estou ficando para trás, que devia aguentar, que antes eu corria aquilo. Tenho tentado responder com fatos simples. Estou andando porque a subida pede, porque a prova é longa e porque combinei isso comigo antes de sair de casa.

Uma frase me ajudou bastante, e anotei no caderno dos treinos para lembrar nos dias ruins.

Cada subida que eu caminho com calma é energia guardada para um trecho que eu ainda nem consigo ver.

Também penso no motivo da prova. Cada quilômetro da BR135 vira uma cesta básica para uma família em situação de risco, pelo projeto Além da Chegada. A meta são 240 cestas, e essas famílias precisam que eu chegue ao fim. Ninguém vai perguntar se subi o Caminho da Fé correndo ou andando. Lembrar disso tira um pouco do peso do orgulho.

O mesmo padrão fora da corrida

Vejo essa mania aparecer longe do treino também. Em vendas, tenho o hábito de querer resolver tudo no ritmo máximo, e semanas assim me deixam vazio na sexta. Em casa, quando tento dar conta de tudo correndo, minha esposa e meu filho sentem antes de mim. Diminuir o passo em alguns momentos tem me ajudado a chegar inteiro ao fim do dia, mesmo que pareça menos heroico.

Não sei se vou acertar esse equilíbrio na prova. Tenho dúvida se vou manter a calma quando estiver cansado, de madrugada, e alguém me passar numa subida. Por enquanto, estou treinando a caminhada com a mesma atenção que dou à corrida, e os treinos longos têm terminado com mais perna do que antes.

Quem tem pouco tempo para treinar, como eu, talvez encontre ideias em treinar para ultramaratona com pouco tempo. Uma ladeira perto de casa já serve para praticar a caminhada forte num treino curto.

Seguindo pela subida

Agradeço a Deus pelas pernas que me levam, rápidas ou devagar, e pela chance de correr por quem precisa. Cada subida feita com saúde eu recebo como um presente.

Se você também briga com a ideia de caminhar em prova, me conta como resolve isso. Estou mostrando a preparação para a BR135 no Instagram, e você pode falar comigo pela página de contato.

quem escreve

Patoloko

Pai, marido, trabalho com vendas e treino para ultramaratonas. Escrevo sobre disciplina enquanto ainda estou tentando. Ler o manifesto.

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