Trabalho com vendas e travo na hora de pedir doação para o Além da Chegada. O que estou tentando mudar na campanha da BR135.
Por Patoloko, em 26 de outubro de 2026 · 6 min de leitura
Eu passo o dia vendendo. Faço ligação, mando mensagem, marco reunião, ouço não e volto a ligar na semana seguinte. Isso eu sei fazer, ou pelo menos estou aprendendo a fazer melhor a cada mês. Quando chega a hora de pedir doação para o Além da Chegada, parece que tudo isso some da minha cabeça.
Fico com o celular na mão, escrevo a mensagem, apago, escrevo de novo. Penso em quem vai ler e no que essa pessoa vai achar de mim. Às vezes desisto de mandar. Para quem trabalha com vendas, é estranho travar justamente no pedido em que eu mais acredito.
Resolvi escrever sobre isso porque a campanha da BR135 está ativa e eu preciso pedir. Colocar no papel me ajuda a entender o que está travando.
Para quem chegou agora, o projeto funciona assim. A cada quilômetro que eu percorro em uma prova de ultramaratona, uma cesta básica vai para uma família em situação de risco. A próxima prova é a BR135, com 240 km e cerca de 8.000 metros de desnível positivo pelo Caminho da Fé. São 240 cestas. Cada uma custa R$ 75, o que dá R$ 18.000 no total.
Escrito assim, o número assusta um pouco. R$ 18.000 é muito dinheiro para mim. Quando eu penso em uma cesta de R$ 75, a coisa fica mais perto. Uma cesta é uma família com comida em casa por um tempo, e isso eu consigo explicar para qualquer pessoa em duas frases.
Se você quiser entender como tudo começou, contei a história em como nasceu o Além da Chegada. Em 2021 eram 24 famílias. A ideia continua a mesma desde lá.
Passei um tempo tentando entender por que o pedido de doação pesa mais do que uma proposta comercial. Cheguei a algumas respostas, e nenhuma delas me deixa muito confortável.
Olhando essa lista, percebo que quase todos os motivos giram em torno da minha imagem. A família que vai receber a cesta nem aparece nela.
Algumas coisas que faço todo dia no trabalho servem aqui também. A primeira é preparar a conversa antes. Escrevi sobre isso em preparar a conversa antes de entrar nela, e vale para doação do mesmo jeito. Quando sei o que quero dizer, mesmo sem roteiro decorado, fico menos tentado a pedir desculpas no meio da mensagem.
A segunda é ser claro no pedido. No trabalho eu aprendi, errando bastante, que mensagem vaga gera resposta vaga. “Se puder ajudar, ajuda” quase nunca vira nada. “Uma cesta custa R$ 75, você consegue patrocinar uma?” dá para a pessoa uma decisão simples. Ela pode dizer sim, pode dizer não, pode dizer que agora não dá. Qualquer uma dessas respostas é melhor do que o silêncio que vem depois de um pedido confuso.
A terceira é aceitar o não sem levar para o lado pessoal. Essa eu treino há anos e ainda erro. Uma pessoa que não doa pode estar apertada, pode já ajudar outra causa, pode simplesmente não ter visto a mensagem. Eu não sei o que se passa na casa dela, do mesmo jeito que ela não sabe o que se passa na minha.
Tem uma parte do meu jeito de vender que eu prefiro deixar de fora da campanha. No trabalho existe meta, e a meta às vezes me deixa insistente demais. Já percebi em mim aquela vontade de fechar a qualquer custo, de transformar toda conversa em oportunidade. Numa campanha solidária isso estraga a relação com as pessoas.
Ninguém tem obrigação de doar. Se eu pressiono alguém e a pessoa doa por constrangimento, a cesta chega igual, só que a pessoa fica com um gosto ruim. E eu vou precisar dessa relação na próxima prova, e na seguinte. Prefiro menos gente doando com vontade.
Também tento não usar culpa. Seria fácil escrever um texto pesado sobre fome e esperar que o desconforto fizesse o resto. Não quero fazer isso. As famílias atendidas merecem ser tratadas com respeito, e eu não acho certo usar a situação delas como argumento de convencimento.
Quando eu peço doação, quem recebe é uma família que eu talvez nunca conheça. Lembrar disso me ajuda a mandar a mensagem mesmo quando a vergonha aparece.
Eu costumo pensar na BR135 em quilômetros, em subida, em noite sem dormir. Faz pouco tempo que comecei a encarar a campanha como parte da preparação. Os 240 km têm um lado que acontece na estrada e outro que acontece antes, no celular, em cada mensagem enviada. Se eu terminar a prova e as cestas não tiverem sido arrecadadas, o projeto não cumpriu o que prometeu.
Com o TDAH, tenho tendência a fazer tudo em surto. Mando um monte de mensagens num dia e depois sumo por semanas. Estou tentando trocar isso por uma rotina pequena, parecida com a do treino. Poucas mensagens por semana, com calma, para pessoas diferentes, anotando quem eu já procurei para não repetir nem esquecer ninguém.
Ainda não sei se vai funcionar. A meta é alta e tem dia em que eu acho que não vamos chegar. Mesmo assim, cada cesta que entra já é uma família atendida, seja qual for o total no fim da campanha.
Quem já doou para o Além da Chegada, em qualquer momento desde 2021, me ajudou a continuar nos dias em que eu duvidei do projeto. Quem respondeu uma mensagem minha, mesmo para dizer que não podia, também ajudou, porque me lembrou que pedir faz parte e que a resposta não define quem eu sou.
Agradeço a Deus por ter colocado essa ideia no meu caminho e pela saúde para correr atrás dela. Peço a Ele um pouco de coragem para mandar a próxima mensagem com menos vergonha.
Se você quiser ajudar, as informações da campanha estão na página do Além da Chegada. Se quiser só acompanhar a preparação para a BR135, eu conto o dia a dia no Instagram. E se tiver uma ideia para a campanha, pode me escrever pela página de contato.
quem escreve
Pai, marido, trabalho com vendas e treino para ultramaratonas. Escrevo sobre disciplina enquanto ainda estou tentando. Ler o manifesto.
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