Quando falo de ultramaratona, quase sempre a conversa vai para o treino. Quantas horas por semana, como encaixo com o trabalho, a que horas acordo. Pouca gente pergunta quem está em casa nessas horas. A resposta é a minha esposa, e eu demorei mais do que deveria para olhar para isso com atenção.
Cada treino longo tem um custo que não aparece no relógio. Alguém acorda com o nosso filho, prepara o café, resolve o imprevisto da manhã e segura a rotina sozinha enquanto eu estou na estrada. Depois eu chego cansado, tomo banho, como e às vezes ainda preciso deitar um pouco. O dia dela continua andando no mesmo ritmo.
Este texto é uma tentativa de organizar o que venho percebendo sobre essa divisão. Ainda não acertei o equilíbrio. Já escrevi sobre os dias em que ficar em casa é a escolha mais difícil. Aqui quero falar dos dias em que eu saio e alguém fica.
Minha planilha diz quantos quilômetros correr, em que ritmo e em que dia. Ela não diz quem vai levar o filho a algum lugar naquela manhã, quem vai fazer o almoço, quem vai lidar com o que aparecer no meio do caminho. Por muito tempo eu tratei isso como pano de fundo. O treino era o compromisso, e o resto acontecia de algum jeito.
Acontecia porque minha esposa fazia acontecer. E quanto mais a preparação para a BR135 cresce, mais horas eu passo fora e mais esse trabalho invisível pesa do lado dela. São 240 quilômetros pelo Caminho da Fé, com cerca de 8.000 metros de subida acumulada. Uma prova desse tamanho pede volume, e volume pede tempo que sai de algum lugar da casa.
Quando paro para pensar em como termina um sábado de treino longo, a conta fica clara. Eu volto cansado, com o treino feito e a sensação de dever cumprido. Ela também chega ao fim do dia cansada, e o tempo dela foi quase todo para a rotina da casa. Demorei a enxergar isso porque ninguém precisou reclamar para que fosse verdade.
Eu agradecia. Falava que sem ela não daria, reconhecia o apoio sempre que alguém perguntava. Tudo verdadeiro. Só que agradecer não devolve as horas, e com o tempo o agradecimento corre o risco de virar uma forma educada de seguir do mesmo jeito.
O que mudou para mim foi pensar em troca concreta. Se eu fico uma manhã inteira fora no sábado, quais horas da semana são dela? Se ela segura a manhã, o que eu seguro à noite? A conversa ficou menos sentimental e mais parecida com organizar uma agenda a dois, e isso ajudou bastante.
Nada aqui é regra pronta. São ajustes que fizemos nos últimos tempos e que ainda mexemos quando a semana muda.
Escrito assim parece simples. Na prática, eu falho principalmente no terceiro item. Tem treino que sai mais pesado do que o planejado e eu chego em casa sem condição de muita coisa. Ajustar o volume com ajuda de um educador físico, pensando também no que sobra de energia para a família, é algo que eu recomendo a quem está nessa situação.
Tenho TDAH diagnosticado desde 2017. Uma das coisas que isso faz comigo é deixar a atenção presa no que está me empolgando. Quando estou num ciclo forte de treino, a corrida ocupa muito espaço na minha cabeça, e é fácil não perceber que a casa está pedindo mais de mim.
Por isso as combinações precisam estar escritas e visíveis. Se dependerem da minha percepção no momento, eu vou deixar passar. Ajuda também perguntar diretamente, em vez de esperar que ela fale. Uma pergunta simples no domingo à noite sobre como foi a semana para ela já mudou algumas decisões minhas.
Se você sente que o TDAH ou outra questão de saúde mental está atrapalhando a vida em casa, procure um psicólogo ou um psiquiatra. Acompanhamento faz diferença. E se a coisa estiver pesada demais, o CVV atende pelo telefone 188, a qualquer hora e de graça.
Penso muito no que meu filho vê nisso tudo. Gosto que ele cresça vendo alguém se dedicar a algo difícil. Também quero que ele perceba que o esforço de um depende do apoio do outro, e que esse apoio precisa ir nos dois sentidos.
Se ele só vir o pai saindo para correr e a mãe segurando tudo, vai aprender uma divisão que eu não quero ensinar. Quero que ele veja os dois abrindo espaço um para o outro.
Isso pesa nas minhas escolhas. Tem treino que eu troco de horário para estar num momento dele. Tem fim de semana em que a prioridade é a família inteira junta, sem corrida no meio. Contei um pouco dessa busca em ser um pai presente sem apagar quem eu era antes.
O Patoloko, Além da Chegada transforma cada quilômetro de prova em uma cesta básica para uma família em situação de risco. Para a BR135, a meta é de 240 cestas. É um projeto com o meu nome, e ele só existe porque em casa existe estrutura para eu treinar.
Isso mudou a forma como eu falo dele. Cada cesta que chega a uma família passa, de algum jeito, por horas que minha esposa segurou sozinha. Reconhecer isso em público parece justo, e mais justo ainda é reconhecer na rotina, dividindo melhor a semana.
Não sei se a divisão que temos hoje vai aguentar o pico da preparação. As semanas mais pesadas ainda estão por vir, e o volume vai pedir mais tempo fora. Pode ser que algumas combinações não funcionem e a gente precise rever tudo.
Também tenho dúvida se estou enxergando o quadro inteiro. É provável que exista trabalho invisível que eu ainda não notei. Por isso a conversa semanal continua, mesmo quando parece que está tudo em ordem.
Se você também treina para algo grande e divide a casa com alguém, quero saber como vocês se organizam. Me conta pela página de contato ou acompanha o dia a dia no Instagram.
quem escreve
Pai, marido, trabalho com vendas e treino para ultramaratonas. Escrevo sobre disciplina enquanto ainda estou tentando. Ler o manifesto.
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