A prova dura um ou dois dias e rende as fotos. A cesta na mesa precisa voltar todo mês, e essa parte do Além da Chegada quase nunca aparece.
Por Patoloko, em 3 de novembro de 2026 · 5 min de leitura
Quase toda foto que eu posto do Além da Chegada tem um corredor nela. Eu de colete, eu na estrada, eu de braço erguido em alguma chegada. É a parte que chama atenção, e eu entendo por quê. Prova longa tem cena, tem sofrimento visível, tem começo e fim.
Só que a prova dura um ou dois dias. A família que recebe a cesta precisa comer no mês seguinte também, e no outro. Essa diferença de tempo tem ocupado bastante a minha cabeça, principalmente agora que a campanha da BR135 está aberta e a atenção toda vai para os 240 km.
Resolvi escrever sobre a parte que fica de fora das fotos. Em parte para quem acompanha, em parte para mim, porque eu tenho tendência a esquecer dela.
Quando o projeto nasceu, em 2021, a ideia era manter 24 famílias. Eu gosto de voltar nessa palavra, manter. Uma doação pontual resolve uma semana. Manter significa voltar, repetir e aparecer de novo quando ninguém está olhando.
Contei como tudo começou no texto sobre como nasceu o Além da Chegada. Relendo aquele texto, percebi que eu falo muito da prova e pouco do que acontece entre uma prova e outra. Essa parte é menos bonita de contar e dá mais trabalho de fazer.
Cada cesta que chega numa casa passou por um caminho antes. Eu não vou entrar em detalhe de logística aqui, mas dá para resumir o que fica fora da foto:
Nenhum desses itens rende uma foto boa de corrida. Quase todos dependem de outras pessoas além de mim. Quando eu posto a chegada de uma prova, parece que o mérito é de quem correu, e isso me incomoda um pouco. A parte que eu faço com as pernas é a mais simples de explicar e talvez a menos importante para quem está esperando a cesta.
Tenho TDAH diagnosticado desde 2017. Uma das coisas que eu aprendi sobre mim nesses anos é que eu funciono bem com intensidade. Data marcada, desafio grande, contagem regressiva. Foi assim com o paraquedismo, com o jiu-jitsu, com o kart, e continua assim com as ultras.
A rotina repetida é onde eu escorrego. Quando não tem prova no calendário, o mesmo projeto que me move tanto perde cor na minha cabeça. Eu sei disso há tempo, e saber ainda não resolveu sozinho.
Por isso eu desconfio um pouco do meu próprio entusiasmo com a BR135. Ele ajuda a pedir e ajuda a treinar. Ele também tem prazo de validade. Depois da prova vai vir uma semana de corpo moído, depois uma semana de vida normal, e a necessidade das famílias continua no mesmo lugar.
Ainda estou no meio disso, então não tenho método pronto. Tenho algumas tentativas, e conto aqui para ter onde me cobrar depois.
A primeira é falar mais da entrega. Quando tiver uma foto de cesta montada, ela vai ganhar o mesmo destaque que a foto da chegada. Parece detalhe, mas muda o que as pessoas associam ao projeto, e muda o que eu associo também.
A segunda é não esperar a próxima prova para lembrar do projeto. Um registro simples de vez em quando, contando o que foi feito, já mantém o assunto vivo sem transformar cada mês numa campanha barulhenta.
A terceira é aceitar ajuda de quem é bom justamente onde eu sou fraco. Tem gente que gosta de organizar, de conferir lista, de manter planilha em dia. Eu gosto de passar horas correndo numa estrada de terra. Faz sentido dividir o trabalho de acordo com isso.
Quando eu cruzo uma linha de chegada, a campanha fica bonita por alguns dias. A família que recebeu a cesta vai precisar de outra daqui a algumas semanas, e eu quero continuar presente quando isso acontecer.
Já escrevi sobre como pedir doação é a venda mais difícil que eu faço. Continua difícil. Pedir para uma prova grande ainda é mais fácil do que pedir para a rotina, porque a prova vem com uma história pronta. Para a rotina eu só tenho a necessidade para mostrar, e ela muda pouco de um mês para o outro.
A campanha da BR135 tem números claros. São 240 km com cerca de 8.000 metros de desnível positivo pelo Caminho da Fé, meta de 240 cestas, R$ 75 cada, R$ 18.000 no total. Vou usar essa prova para pedir, sem vergonha nenhuma. O que eu quero é que quem doar agora entenda que aquela cesta faz parte de algo que já vinha acontecendo antes e que vai continuar depois.
Se você quiser contribuir com uma cesta ou com várias, os detalhes estão na página do Além da Chegada.
Às vezes eu me pego pensando no quanto esse projeto depende de coisa que eu não controlo. Gente que doa, gente que ajuda a montar, gente que confia. Eu corro e peço, e o resto acontece porque mais pessoas decidiram fazer parte.
Agradeço a Deus por ter colocado essas pessoas no meu caminho e pela saúde para seguir correndo e pedindo. Peço também paciência para cuidar da parte que não dá foto com o mesmo carinho que eu tenho pela parte que dá.
Se quiser acompanhar o dia a dia do projeto, incluindo as entregas, estou no Instagram. Se tiver ideia de como ajudar na parte de organização, me chama pela página de contato. Vou gostar de ouvir.
quem escreve
Pai, marido, trabalho com vendas e treino para ultramaratonas. Escrevo sobre disciplina enquanto ainda estou tentando. Ler o manifesto.
Quer comentar este texto?

Cada parcela parece pequena sozinha. Como venho tentando enxergar a fatura dos próximos meses antes de parcelar mais uma coisa.

O cliente diz que vai pensar e eu adio a ligação de volta por dias. Como venho tentando fazer o retorno no prazo, mesmo…

Pensar nos 240 km da BR135 de uma vez me trava. Como eu venho dividindo a preparação, a semana e o treino em pedaços…
