Quando a semana aperta, tem uma coisa que some primeiro da minha agenda e eu nem percebo na hora. Ela não aparece na planilha de treino, não tem meta de vendas e ninguém em casa reclama quando ela falta. É o sono. Durmo mais tarde para responder mensagem de cliente, acordo mais cedo para encaixar o treino antes do expediente e ainda acho que estou sendo eficiente.
Passei muito tempo tratando dormir como um luxo de quem já tem a vida organizada, um prêmio para depois. Hoje desconfio que esse jeito de pensar me custou mais treino ruim, mais irritação e mais decisão torta do que eu consigo contar. Ainda estou mexendo nisso e não tenho fórmula pronta. Escrevo do meio da tentativa.
Antes de seguir, um aviso honesto. Nada aqui substitui conversa com médico. Se você dorme mal faz tempo, ronca muito ou acorda cansado mesmo depois de dormir bastante, procure um profissional de saúde. Estou contando o que tenho testado na minha rotina, sem outra autoridade além de ser a cobaia.
A conta parece simples. O dia tem as mesmas horas para todo mundo, e eu enfiei nele trabalho em vendas, casamento, paternidade e treino para ultramaratona. Quando alguma coisa precisa de mais espaço, ela tira de algum lugar. O treino tem horário marcado. O trabalho tem cliente esperando. A família tem gente olhando para mim. O sono fica com o que sobrar, porque é a única parte do dia em que ninguém está me cobrando nada.
Com o TDAH, que tenho diagnosticado desde 2017, isso piora de um jeito bem específico. A noite é quando a casa fica quieta e a cabeça finalmente acha espaço para render. Começo uma coisa às dez e meia, olho de novo e já passou da meia-noite. Nesse horário eu me sinto produtivo de verdade, e no dia seguinte pago a conta com juros.
Não tenho exame nem medição para mostrar. Tenho só o que eu noto em mim, e já é bastante coisa.
Nenhum desses sinais aparece sozinho de forma dramática. Eles vão se somando ao longo da semana, e só lá pela sexta eu entendo que estou rodando no vazio.
Essa pergunta me pega sempre. Entre quem treina para prova longa existe uma ideia meio romântica de que treinar exausto prepara para a exaustão da prova. Em parte faz sentido. Numa ultramaratona eu vou estar cansado, com sono, e vou precisar continuar andando.
Treinar cansado de vez em quando, de propósito e com orientação, tem uma razão de ser. Treinar cansado toda semana porque a vida desorganizou me parece só desgaste acumulando. Demorei a perceber que eu vinha fazendo isso e chamando de preparação.
Hoje, quando a noite foi muito curta, tento conversar com o plano em vez de cumprir no automático. Às vezes troco o treino forte por um leve. Às vezes durmo um pouco mais e corro menos. Ainda fico com culpa quando faço isso. Quem me ajuda a tomar essa decisão com critério é o educador físico, e recomendo ter um se você treina para provas longas.
Não montei uma rotina perfeita de sono. Montei algumas regras pequenas que eu quebro com frequência, e mesmo assim elas funcionam melhor do que regra nenhuma.
O celular é o maior ladrão do meu sono. Começo respondendo uma mensagem de trabalho e termino vendo vídeo de prova dos outros. Tenho tentado deixar o aparelho carregando longe da cama. Nem sempre consigo, e quando não consigo dá para sentir no dia seguinte.
Em vez de decidir a que horas acordo e torcer para dormir cedo, começo pela hora de deitar. Se o treino é de madrugada, o dia anterior precisa terminar mais cedo. Escrito assim parece óbvio. Na prática eu só comecei a fazer depois de muitas semanas me arrastando.
Conversar com a minha esposa ajudou mais do que qualquer aplicativo. Quando ela sabe que no dia seguinte tenho treino cedo, a gente ajusta a noite junto. Ela também tem os cansaços dela, então esse combinado precisa valer para os dois lados.
Tem noite que não dá. Criança acorda, trabalho aperta, a cabeça não desliga. Nesses dias tento não compensar com café demais nem com treino dobrado depois. Sigo o dia e tento fazer melhor na noite seguinte.
Teve fase em que eu dormia mal porque a cabeça não parava. Preocupação com dinheiro, com meta, com o futuro de quem depende de mim. Nessas épocas nenhum ajuste de rotina resolvia, porque a causa estava em outro lugar.
Quando o sono some por muitos dias seguidos, eu tento tratar isso como sinal de que alguma coisa está pesando e eu ainda não dei nome para ela.
Se isso acontece com você, conversar com um psicólogo ou com um médico pode ajudar a entender o que está por trás. Se ficar pesado demais, o CVV atende pelo telefone 188, de graça, a qualquer hora. Escrevi mais sobre esse lado em saúde mental para quem não pode sumir por algumas semanas.
A campanha do Além da Chegada para a BR135 tem 240 km pelo Caminho da Fé, com cerca de 8.000 metros de desnível positivo. Cada quilômetro vira uma cesta básica para uma família em situação de risco. Uma prova desse tamanho vai mexer com o meu sono de qualquer jeito, antes e durante. Chegar nela já devendo descanso dos meses de preparação me parece o pior plano possível.
Por isso estou tentando colocar o sono dentro do treino, como parte da preparação. Ainda erro bastante. Tem semana em que vou bem e tem semana em que volto a deitar tarde achando que estou ganhando tempo. A diferença é que agora eu percebo mais rápido quando estou fazendo isso.
Se você também empurra o sono para o fim da fila, me conta como lida com isso. Estou por aqui tentando acertar a minha noite um pouco de cada vez. Dá para acompanhar o dia a dia no Instagram ou falar comigo pela página de contato.
quem escreve
Pai, marido, trabalho com vendas e treino para ultramaratonas. Escrevo sobre disciplina enquanto ainda estou tentando. Ler o manifesto.
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