Tenho TDAH diagnosticado desde 2017, e uma das partes que mais demorei para enxergar foi a minha relação com o dinheiro. Por muito tempo achei que gastava mal por falta de controle e pronto. Depois do diagnóstico comecei a reparar num padrão mais específico. A compra quase nunca nasce de uma necessidade. Ela nasce de uma vontade de novidade que aparece de repente e pede resposta na hora.
Em casa a gente vive com um salário que muda todo mês, coisa de quem trabalha com vendas, e já contei como tento organizar isso em outro texto. O orçamento pode estar bem montado no papel. Se eu não cuidar do impulso, ele vaza por um monte de buraco pequeno.
Escrevo isto ainda no meio do caminho. Tenho mês bom e tenho mês em que olho a fatura e preciso parar para lembrar de onde veio metade das linhas.
Ele quase nunca chega como uma compra grande. Chega como uma sequência de coisas pequenas que, uma por uma, parecem razoáveis. Um acessório de corrida que promete resolver um incômodo do treino. Um curso que vai me ajudar a vender mais. Um pedido de comida no fim de um dia pesado. Cada uma tem uma boa explicação, e a minha cabeça é ótima em produzir boas explicações.
Quando paro para olhar com calma, o horário chama atenção. Muitas das compras de que me arrependo aconteceram à noite, cansado, com o celular na mão e a cabeça procurando alguma coisa que desse um pouco de ânimo. A compra faz esse papel por alguns minutos. Depois chega a caixa, ou chega a cobrança, e o ânimo já foi embora faz tempo.
Tem também o lado do hiperfoco. Quando eu me empolgo com um assunto novo, quero tudo de uma vez. Já passei por paraquedismo, jiu-jitsu, kart e agora pela ultramaratona. Cada fase dessas veio com vontade de equipamento, de roupa, de livro, de qualquer coisa que me fizesse sentir dentro do assunto mais rápido.
Não tenho um sistema perfeito. Tenho algumas travas que vou testando, e umas funcionam melhor do que outras.
Nenhuma dessas travas resolve sozinha. Elas ajudam porque colocam um pouco de distância entre a vontade e o pagamento. Para uma cabeça como a minha, que decide rápido e se arrepende devagar, essa distância faz muita diferença. Nos dias em que esqueço de usar qualquer uma delas, o carrinho fecha em poucos minutos.
A vontade de comprar costuma passar em menos tempo do que a encomenda leva para chegar.
Seria fácil culpar só a cabeça, mas o esporte que eu escolhi também ajuda a gastar. Ultramaratona tem uma lista sem fim de coisas para comprar. Tênis para cada tipo de terreno, colete, bastão, lanterna, suplemento, inscrição. E sempre tem alguém mostrando o equipamento novo que promete mudar o seu treino.
Quando olho para os meus gastos com a corrida, consigo separar o que preciso do que comprei empolgado. Tênis e inscrição ficam no primeiro grupo. Muita coisa pequena fica no segundo, e somada ela pesa mais do que eu gostaria de admitir.
Tem uma ironia nisso que me incomoda. Eu corro para arrecadar cestas básicas para famílias em situação de risco no projeto Além da Chegada. A campanha da BR135 tem meta de 240 cestas, a R$ 75 cada uma. Quando gasto por impulso numa coisa de que eu não precisava, às vezes faço a conta de quantas cestas aquilo pagaria. Faço essa conta sem drama, só para colocar a vontade do momento numa escala que eu entendo.
Durante muito tempo eu vivi entre dois extremos. Gastava sem pensar e depois passava semanas me cobrando, cortando tudo, prometendo que agora ia ser diferente. O corte radical durava pouco, e o impulso voltava mais forte. Vi esse ciclo se repetir tantas vezes que parei de confiar em promessa feita no susto da fatura.
Hoje tento tratar o deslize como informação. Comprei algo de que não precisava, então vou olhar em que horário foi, como eu estava e o que tinha acontecido no dia. Quase sempre a resposta aponta para cansaço ou para um dia em que a cabeça estava cheia demais. Entender isso me ajuda mais do que a bronca que eu me dava antes.
Tem relação direta com o que vivo no treino. Quando durmo mal e chego exausto ao fim do dia, faço escolhas piores em tudo, da comida ao dinheiro. Cuidar do descanso acaba sendo também uma forma de cuidar da conta do mês.
O que eu conto aqui é o que tem funcionado comigo, e muita coisa ainda está em teste. Se você sente que o impulso de compra está pesando no orçamento da sua casa, vale procurar um planejador financeiro para organizar as contas com método. Se desconfia que existe algo por trás disso, como TDAH, ansiedade ou uma fase difícil, converse com um psicólogo ou com um médico psiquiatra. E se precisar falar com alguém agora, o CVV atende pelo telefone 188, de graça, a qualquer hora.
Agradeço a Deus pela casa que eu tenho e pela paciência da minha família com as minhas fases. Peço a Ele um pouco mais de calma para separar o que eu quero do que a gente precisa.
Sigo testando essas travas mês a mês. Se você também briga com o impulso de comprar, me conta o que funciona aí. Estou no Instagram e leio as mensagens por lá.
quem escreve
Pai, marido, trabalho com vendas e treino para ultramaratonas. Escrevo sobre disciplina enquanto ainda estou tentando. Ler o manifesto.
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